sábado, 10 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 4: O Natal sem a Zulmira


Este vai ser o primeiro Natal da família sem a Zulmira. Na verdade, talvez este seja, antes, o primeiro Natal de todos sem família.
Dizem que as mulheres têm uma enorme capacidade de se desdobrarem em mil e uma funções. E assim se tornam a malha que une todos os pontos. A consistência que dá sentido à dispersão. A sábia substância que torna coesos os dias. Zulmira era um exemplo dessa paradigmática vocação feminina. E muito mais. Como um dado atirado sobre a vida dos outros, Zulmira tinha o dom de cair sempre com a face certa para cima. Porque não obstante ter o seu tempo para mergulhar na dormência profunda do seu veneno incolor, e vasculhar nas entranhas da inconsciência até encontrar os contornos da sua paz, Zulmira emergia depois à superfície com um vigor que contagiava a atmosfera com aqueles cheiros alquímicos a bolo quente e a arroz doce. Vinha carregada de ternura. Uma sensação que se lhe granulava nos olhos e a fazia sentir-se segura na paisagem dos seus filhos entregando-se ao prazer de uma fatia de bolo com leite morno. Aquele era sempre o retorno a uma espécie de génese da alegria. Ao momento de uma certa criação. Aquele momento que durou os primeiros sete anos da sua vida.
O filho mais novo de Zulmira terá, por essa lógica, completado ontem o ciclo da sua criação. Fez sete anos. Zulmira teria desejado estar presente para lhe fazer um bolo. Para lhe lembrar que, não obstante o universo estar viciado na programação septenária de todas as coisas, ele era ainda, e apenas, uma criança. Colocar-lhe um copo de leite morno nas mãos e dizer-lhe
toma o leitinho todo, meu amor, para seres um homem grande.
E, quem sabe, talvez essas precisas palavras lhe vão fazer falta. Talvez, por causa da falta que lhe vão fazer, o pequeno Tomás não cresça tanto quanto devia.
A mãe do Tomás era a sua família. A sua família toda. E Tomás não perdeu apenas a sua mãe. Porque sem Zulmira, a sua filha mais velha deixou de saber para que serve e não se lembra que é a irmã mais velha de alguém. E o seu pai anda tão ocupado a pensar no que vai fazer com a raiva que já não pode dar a Zulmira, que não se lembra que tem filhos. E o outro irmão do Tomás queria muito oferecer-lhe, como prenda de natal, um céu que lhe fosse azul. Mas o pequeno José não conhece as cores.
Assim, este será o Natal de uma única surpresa: a perceção doída de cada um estar tão só.


[escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 3: Da infância de Zulmira


Zulmira crescera numa pequena aldeia sob o estigma da bastardia. Zulmira, a zorra, chamavam-lhe na aldeia. Num aproveitamento básico da aliteração ironicamente acidental. Não lho chamavam directamente. Como se, poupando-lhe os ouvidos das palavras, lhe suprimissem o respectivo eco no peito. Mas era assim que falavam dela.
A mãe era uma boa mulher. Calhara ter acreditado que os frémitos do corpo tinham sempre raízes na alma. Nos sentimentos puros e castos que nascem muito antes da pele. E assim se entregou à desonra, inocente e apaixonada.
O desencanto que lhe tomou os restantes dias da existência depois da dolorosa lição com que a vida lhe tirou a inocência foi tal, que a mãe de Zulmira nunca mais quis saber de homem nenhum. E muitos foram os que, por via da sua condição de desonrada, tentaram a sua sorte. Mas nenhum deles chegou a experimentar o deleite das suas formas de mulher.
Zulmira admirava a mãe. Levantava-se cedo para ir à jeira. Trabalhava de sol a sol. E trabalhava quando não havia sol e o gelo lhe tomava os pulsos, torturando-lhe os gestos. Trabalhava como poucas mulheres, para criar a pequena Zulmira.
Zulmira sofria com o afastamento dos avós, que renegaram a filha desonrada e a neta ilegítima. Mas nada dizia à mãe para não aumentar o fluxo de lágrimas que todas as noites ela entregava ao cansaço na quietude do travesseiro. Zulmira bem ouvia o seu choro amarrotado sob a mordaça do silêncio. O ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
Acordava Zulmira com uma carícia na testa. Todos os dias. E todos os dias lhe dizia Deus te abençoe, minha filha.
Quando Zulmira entrou para a escola, a mãe temeu pela segurança emocional da filha. As outras crianças haviam de constantemente lembrar a pequena, com requintes de malvadez, da sua condição de zorra. Todos os dias. Apoquentada, resolveu antecipar-se e foi à escola, falar com a professora. Contou-lhe a história da sua vida. Comovida, pediu-lhe que não castigasse a filha pelos erros da mãe. Que a tratasse como às outras crianças. Que não deixasse as outras crianças humilharem a sua menina.
A professora disse-lhe que sim. Mas no dia seguinte decidiu, sem querer, que Zulmira seria a sua pior aluna. Porque nenhuma menina sem pai poderia ter aproveitamento escolar. E colocou-a na última fila da sala. Sem querer. Seguindo, inconsciente, os trilhos fáceis deixados pelos estigmas sociais da época.
Zulmira percebeu. Mas não quis apoquentar mais a mãe. Nem mesmo quando as outras meninas começaram a gozá-la no recreio, por ter um pai que não era pai dela. A mãe nunca lhe explicara claramente o que acontecera para que nunca tivesse conhecido o seu pai. Mas Zulmira sabia que enquanto tivesse aquela mãe nenhum pai lhe faria falta. Era tácita mas sólida a cumplicidade que as unia. Numa teia apertada de emoções pela qual se excluíam do mundo.
Por isso, quando a mãe lhe faltou, aos 21 anos de idade, Zulmira perdeu-se nas malhas dos afectos fáceis. Tropeçou tragicamente no pai dos seus três filhos e na queda perdeu o andar. E assim se tornaria dependente. Para sempre.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jorge de Sena: a inteligência e a frontalidade de um génio



"O nosso mal, entre nós, não é sabermos pouco; é estarmos todos convencidos de que sabemos  muito. Não é sermos pouco inteligentes; é andarmos convencidos de que o somos muito."

"O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos."

Jorge de Sena





Jorge de Sena, escritor, crítico, poeta, ensaísta e professor universitário, nasceu em Lisboa, em 1919. Ao longo da sua vida escreveu obcecadamente, não obstante ter sido, em vida, muto mais criticado (Eugénio Lisboa fala mesmo em "calúnia") do que reconhecido.
Por não se conformar com a marginalização a que quiseram votá-lo, Jorge de Sena foi, não raras vezes, acusado de arrogante. Mas hoje o que se lhe reconhece é uma grande frontalidade, atitude que exerceu ao longo da vida de forma coerente e sempre provido de uma inteligência insuperável. Como todos os génios, a sua grandeza ofuscou a pequenez de muitos dos que, à data, insistiram em manter pequeno o universo da cultura e da literatura. Jorge de Sena não hesitou em resistir a esta realidade atrofiante.
Traçando o seu perfil, Eugénio Lisboa define o escritor como "inteligente num terreno de plantas sensitivas, trabalhador numa corporação onde abundam os madraços com ambições, estudioso num contexto de preguiçosos intelectuais, poeta mas também crítico e erudito, professor mas convivente brilhante e caloroso, académico mas salutarmente malcriado, literato em tempo quase inteiro mas de formação científica e filosófica, o que incomoda sempre mais gente do que aquela que gosta de ser incomodada."
Jorge de Sena faleceu em 1978, nos Estados Unidos, onde residia desde 1965, partilhando a sua vasta aptidão intelectual como professor universitário, sendo que nos últimos oito anos como catedrático de Literatura Comparada na Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara.

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«Quem a tem...»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena in "Fidelidade" - Poesia II, Lisboa, 1978

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O receio da morte é a fonte da arte


Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte


Excerto do poema "A fonte da arte", de Ruy Belo
in "Despeço-me da Terra da Alegria"



Ruy Belo foi um poeta e ensaísta português, hoje considerado um dos maiores do século XX.
Nasceu em 1933, em S. João da Ribeira (Rio Maior). Licenciado em Direito e em Filologia Românica, viria a  doutorar-se em Direito Canónico.
Sobre a sua obra disse um dia José Tolentino Mendonça,  ter "uma originalidade e um fulgor incontornáveis. É um ponto de luz, um grande momento de transfiguração da língua".
De facto ler Ruy Belo é, também para mim, um momento de transfiguração, pela sabedoria que é a seiva da sua escrita, só por si de uma beleza ímpar.
Impressiona-me especialmente o seu último livro publicado em vida, em 1977, a que chamou "Despeço-me da Terra da Alegria". Um ano mais tarde viria a falecer, com apenas 45 anos, vitimado por um edema pulmonar.
No prefácio da quarta edição desta obra, 22 anos depois,  Eduardo Prado Coelho recorda que "raramente um poeta preparou tão bem a sua morte antecipada como Ruy Belo, com este livro breve, terrível, vertiginoso, aparentemente desesperado, no fim de contas sereno".

sábado, 17 de setembro de 2011

Zulmira morreu 2: Da desorientação


A filha mais velha da Zulmira tem 17 anos e vai para o 12º ano. Arrasta ainda nos olhos, lentos e mortiços, aquela angústia de não saber muito bem para que se serve.
[Se é que se serve para alguma coisa.]
A mãe morreu-lhe na pior altura da vida, portanto. Porque quando nos perdemos, é sempre a mão da nossa mãe que procuramos. É essa mão que, na infância, nos leva de volta ao caminho certo quando nos desviamos. Se vamos no extremo do passeio a mãe pega-nos pela mão e orienta-nos para o lado de dentro, onde estamos protegidos de eventuais atropelamentos. Se entramos no corredor errado do supermercado e percebemos, em pânico, que estamos sozinhos, a voz da nossa mãe há-de atravessar as prateleiras dos enlatados ou dos cereais para nos salvar, anunciando a chegada das suas mãos para muito breve. Se decidimos construir um avião de papel e quase perdemos a paciência porque não atinamos com as dobras necessárias, são os gestos da nossa mãe que descobrem a sequência certa, repondo a paz de se saber que se está a ir bem.
Mas agora a filha mais velha da Zulmira não tem as mãos nem os gestos da mãe. Tem o pai, é verdade. E em muitos casos os pais são bons substitutos das mães. Mas não neste caso. O pai dos filhos da Zulmira seria mais capaz de empurrá-los para a estrada do que de ajudá-los a construir um avião de papel. E jamais salvaria a sua filha mais velha da solidão de corredor algum. E o corredor da Zulmira não tem sinalização. Porque a bem da verdade, a mãe tinha as mãos, mas não teve tempo de lhe construir os sinais antes de enlouquecer. Nem sentidos proibidos, nem sentidos obrigatórios, nem sinais de perigo. Nada. A coisa mais parecida com um sinal que a filha mais velha da Zulmira tem é uma seta desenhada no seu corredor pelo psicólogo que lhe destacaram na escola. Mas é uma seta dúbia e a rapariga não confia nela. Porque em vez de apontar um caminho certo, a seta faz-lhe pergunta e dobra-se ao sabor das respostas. Ora, que seta é esta que não se decide?
A filha mais velha da Zulmira está verdadeiramente desorientada. Não sabe mesmo para que serve. Nem para onde deve ir para que acabe por servir para alguma coisa.
A única coisa que a filha mais velha da Zulmira sabe é que quando a mãe existia ela servia para dar abraços.

[texto publicado na edição de Agosto de 2011 do jornal Cipreste]

Zulmira morreu 1: Da sobrevivência e da morte


Faz por estes dias um ano que Zulmira se suicidou. Zulmira, a mulher do sapateiro, como era conhecida na terra. Um suicídio infeliz (serão todos os suicídios infelizes?). Muito mais infeliz porque a mulher, falecida pela força do desespero (ou da lucidez?), deixou três filhos menores. O pior de uma morte precoce é sempre os filhos que se deixam. E o grito que se lhes deixa nos olhos, para sempre.
Diz-se na terra daquela mulher desesperada (ou demasiado lúcida?) que foi muito maltratada pelo seu marido desde os tempos de namoro. A violência ter-se-á intensificado ao longo da vida conjugal. Os três filhos nasceram entretanto, nos intervalos fugazes da tortura.
Um dia Zulmira, desesperada, descobriu uma garrafa de vodka. Ouvira em tempos dizer que aquele veneno incolor, transparente como a paz, de que na verdade nunca aprenderia o nome, adormecia a dor. E cansada de se doer, a mulher desesperada (ou demasiado lúcida), bebeu os primeiros tragos. Percebeu, então, que há venenos que nos matam de uma tal forma que quase nos permitem querer viver. E nunca mais parou. Quando tudo doía demais, bebia. Quando já tinha saudades do desenho de uma gargalhada articulando-se-lhe no rosto, bebia. Sempre que tudo se assumia insuportavelmente real, bebia. E assim adormecia do cansaço do desespero. E da lucidez.
Em 1897 o sociólogo francês Émile Durkheim veio mexer nas teorias que confirmavam o suicídio como um acto meramente individual, e defender que, afinal, havia muito mais de social na sua origem. Num estudo que viria a tornar-se uma obra de referência na história da sociologia, “O Suicídio”, Durkheim defende, entre outros postulados, que este acto pode resultar de “vínculos sociais fracos”.
Desviando os olhos da sua obra, e trazendo, suspenso pelas frágeis gavinhas da compreensão, este fragmento da sua teoria, é-nos difícil imaginar e desenhar contextos que sirvam a todas as realidades concretas que conhecemos. Mas tudo faz sentido se atendermos à complexidade de tudo o que é tocado pelo comportamento humano. E parece, de facto, haver um denominador comum no estado de espírito de quem voluntariamente quebra os laços com a existência: o sentimento de não pertencer à dimensão física em que todos nos movemos. A sensação de descontextualização. A impressão da impossibilidade de sobrevivência no plano social. No plano das relações sociais que intercepta, inevitavelmente, o plano dos afectos.
E em todos os casos, se atentarmos bem, percebemos que o acto último foi precedido de várias estratégias de luta que adiaram a desistência. Muitos beberam. Outros enveredaram por dependências piores. Incluindo a emocional. Houve os que se isolaram como se o afastamento do mundo diminuísse o seu peso. Outros abdicaram da sua lucidez extrema e enlouqueceram. Mas em todas estas situações o preço a pagar pela sobrevivência é a degradação. E mais tarde ou mais cedo, o ponto de não retorno acontece. E a morte assume-se mesmo como a única saída para uma vida sem sentido.

[texto publicado na edição de Maio de 2011 do jornal Cipreste]

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quem escreve



Quem escreve quer morrer, quer renascer 

num ébrio barco de calma confiança. 

Quem escreve quer dormir em ombros matinais 

e na boca das coisas ser lágrima animal 

ou o sorriso da árvore. Quem escreve 

quer ser terra sobre terra, solidão 

adorada, resplandecente, odor de morte 

e o rumor do sol, a sede da serpente, 

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho, 

o negro meio-dia sobre os olhos. 

António Ramos Rosa*, in ACORDES


*Poeta português nascido em Faro em 1924, radicado em Lisboa desde a década de 60. É considerado um dos percursores da moderna poesia portuguesa e um dos maiores poetas contemporâneos do nosso país.
Foi fundador e co-director de algumas revistas, e colaborador em diversas publicações portuguesas, francesas, brasileiras e espanholas. Organizou e prefaciou várias antologias. Foi também responsável pela tradução de várias obras e publicou vários artigos em diversos jornais e revistas, revelando, também, grande talento como ensaísta. 
Recebeu ao longo do seu percurso literário vários prémios como o Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia, em 1980 (O incêndio dos aspectos), o Prémio Pessoa, em 1988, o Grande Prémio de Poesia APE/CTT, em1989 (Acordes), e o Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen, em 2005 (O poeta na rua. Antologia portátil).
Mas o seu reconhecimento ultrapassa as nossas fronteiras. Além de estar presente em muitas antologias estrangeiras viu já o seu nome na lista dos candidatos ao Prémio Nobel da Literatura e em 1992 venceu o Prémio Jean Malrieu para o melhor livro de poesia traduzido em França.

Sobre o poeta escreveu Eduardo Lourenço, na Revista Relâmpago, em 1999:
"A sua palavra poética vive e morre da vontade de circunscrever o espaço de sonho que separa ou une o absoluto e o nada. A sua visão e a sua aura consistem em dar um corpo de imagens e de metáforas a esta busca do que segundo ele mesmo, se não encontra. A fulgurância do real é inata na pupila, na imaginação, na palavra de Ramos Rosa. É o seu excesso que o fascina e o destrói. Nada há de mais claro neste poeta do nosso sul que o muro branco, a cal, a luz que os des-realiza. Obscura, impenetrável, anti-matéria dessa matéria fulgurante que nós vemos e nos vê, é a palavra poética que não pode substituir o real mas não pode ofuscar-se diante dele sob pena de não existir. Entre a “palavra e a coisa” – e não é um acaso que tenha sido Ramos Rosa o tradutor do memorável ensaio de Foucault – se abre aquele espaço que durante toda a sua vida tem oferecido aos desvelos do autor de “animal olhar” uma inesgotável fonte de perplexidade e de inspiração. O clássico caminho da metáfora não era o que se impunha para sobrevoar este campo minado."

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Escrever é isto

"Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida."

Agustina Bessa-Luís, in "Contemplação Carinhosa da Angústia"

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Al Berto: a irreverência e o Medo


“escrevia freneticamente. esvaziava-me deste último fôlego, deixava-me cair desamparado no fundo da prolongada noite. escrevia e rasgava as palavras que me anestesiavam. às vezes, lia jornais com seus intermináveis discursos cinzentos. desinteressei-me do que se passava à minha volta. é simples, tinha decidido que não leria mais jornais e começaria a escrever sempre em quadricromia.”

in "À Procura do Vento num Jardim d’Agosto"

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Al Berto, escritor e poeta maior da literatura portuguesa, nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948. Cresceu em Sines, e estudou pintura em Bruxelas, mas cedo decidiu que era a escrita a arte da sua vida, e em 1974, já em Portugal, publicou o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”. Este é também o primeiro livro da antologia O MEDO, editada em 1987, e que viria a receber, em 1988, o Prémio Pen Club de Poesia.
A antologia viria a ser reeditada em 1991 e em 1998, em ambos os casos acrescentada dos seus textos poéticos posteriores a 1987. A versão final viria, ainda, a conhecer nova edição no ano 2000.
Na prosa, Al Berto deixou-nos também importantes obras: “Meu Fruto de Morder, Todas as Horas” (1980), Lunário (1988) e “O Anjo Mudo” (1993).
Al Berto morreu precocemente em Lisboa, em 1997, vitimado por um linfoma.  
Em 2007 foi editada uma obra com textos do autor sob o título “Dispersos”.
Marcadamente autobiográfica, a escrita de Al Berto veio trazer para o seio do universo poético o desejo, a sexualidade e o corpo, novas abordagens poéticas que suscitaram debates e mexeram com os antigos paradigmas literários. Uma escrita irreverente, moderna, urbana, não raras vezes reveladora das suas vivências à margem de todas as regras, ao sabor de todos os excessos, mas também pejada de melancolia e angústia. Como se à procura de um sentido para a existência. Uma procura que se revelaria infindável para este escritor, talvez demasiado sensível para qualquer sociedade. Talvez demasiado grande para este mundo.

o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias

in "Uma Existência de Papel"

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Escrever é esquecer

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso."
Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"
Será?...

[imagem retirada da net]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ainda mexendo nas palavras

Na imagem: poema da turma 7º A

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Esta semana regressei a Alfândega da Fé para a realização de mais oito oficinas de escrita com os alunos dos segundo e terceiro ciclos. Na sequência deste projecto, alargado, assim, a todos os jovens desde o quinto ao nono ano, o município está a promover, até ao fim do ano lectivo, um concurso literário aberto a todos estes alunos, com vista a motivar e a premiar a criatividade e o rigor na escrita. Para mim foi, de novo, uma experiência enriquecedora e uma oportunidade de crescimento. Sou grata a todos os meninos e meninas, particularmente aqueles que se entregaram honestamente aos desafios propostos, aceitando "sujar as mãos" nesta aventura de mexer nas palavras. Grata, ainda, aos professores, pela sua valiosa colaboração. Deixo-vos os textos e os poemas que resultaram destes três dias de intenso treino da imaginação e da escrita.


Ficha técnica:
Data: 5, 6 e 7 de Abril de 2011

Local: Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé
Acções: Mexer com as Palavras – oito sessões
Participaram: duas turmas de 5º ano, uma turma de 6º ano, duas turmas de 7º ano, uma turma de 8º ano, e duas turmas de 9º ano Agrupamento de Escolas de AF
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NOTA: Os textos e os poemas aqui publicados não foram alterados, salvo raríssimas excepções. O objectivo deste projecto é que as crianças sintam como suas as palavras e as respectivas construções, dando-lhes a garantia de que são capazes de tanto. Ao lê-los, devemos também considerar as circunstâncias limitativas em termos de tempo em que foram escritos.

 
1º Desafio: a construção de uma pequena história ou um pequeno texto a partir de três palavras escolhida de uma lista de sugestões dos alunos
7ºA [flor/ paz / tinhosa]

FLOR E A PAZ
Flor era uma menina que vivia numa aldeia do Alentejo. Flor tinha vindo de um país em guerra e era órfã, porque os seus pais tinham sido mortos pelos soldados rebeldes. Flor havia trazido do seu país uma cadela chamada Tinhosa. Tinhosa era a companhia de Flor, que só no Alentejo conheceu a paz.

9º B [esmeralda / lenço/ música]

O LENÇO MÁGICO

Magda era uma princesa que tinha um lenço mágico. O lenço de Magda fora-lhe oferecido pela madrinha Esmeralda no dia do seu nascimento. Era um lenço encantado que mudava de cor consoante os sentimentos e emoções de Magda. Quando a princesa estava triste, o lenço escurecia. Quando ela estava alegre, o lenço ficava amarelo. Por vezes Magda sentia muitas emoções ao mesmo tempo, e o lenço ficava colorido como um arco-íris. Um dia Magda passeava nos jardins do palácio quando chegou aos seus ouvidos uma música tão encantadora como o canto dos pássaros. Curiosa com a origem daquele som deslumbrante. Magda correu na sua direcção. Com a pressa, a princesa nem reparou que o seu lenço voara. Já muito próxima do som, tropeçou e caiu. Ainda no chão, percebeu que alguém se aproximava. Levantou os olhos e viu, à sua frente, um príncipe num cavalo branco com uma flauta. Descendo do cavalo, dirigiu-se a Magda, ajudou-a a levantar-se, e perguntou-lhe: - Este lenço é seu? Magda pegou no lenço. Estupefacta, reparou que tinha uma cor que nunca antes tivera. E pensou: “Que sentimento é este?”

7º C [triste/ gato/ paixão]

O EQUÍVOCO

Num dia triste, com nuvens cinzentas e muita chuva, um gato passeava pelas ruas de Nova Iorque quando encontrou um antigo amigo. O gato, de seu nome Óscar, ficou contente com aquele encontro, já que estava bastante angustiado. Isto porque, não via a sua dona há alguns dias. Pensava ele que ela o tinha abandonado. Pluto, o cão que Óscar conhecera no canil havia muitos anos, ouviu as lamentações do seu amigo, sensibilizado. Pluto sabia da paixão de Óscar pela sua dona. Vaguearam juntos alguns dias pela cidade, até que Óscar decidiu voltar a casa. Para sua surpresa, encontrou a sua dona, triste e preocupada, que, ao vê-lo, ficou radiante. Afinal, a sua dona havia ido, apenas, numa viagem de negócios.

5ª B [rosa/ margarida/flauta]
A FUGA DE MARGARIDA
Há muitos, muitos anos, D. Rosa partiu numa viagem pelo mundo. A primeira cidade que D. Rosa visitou foi Paris. De Paris, foi para Roma, de comboio. Nesta viagem, D. Rosa conheceu Margarida, uma menina francesa. D. Rosa achou estranho o facto de a menina viajar sozinha, e meteu conversa com ela. Enquanto conversavam, D. Rosa descobriu que Margarida tinha fugido de casa. D. Rosa ficou preocupada. Foi conversando com a menina para tentar saber tudo sobre ela e, assim, poder ajudar. Entre outras coisas, D. Rosa descobriu que Margarida gostava muito de tocar flauta. E que os seus pais não a deixavam tocar tanto quanto ela queria. E por isso, fugira. D. Rosa convenceu, então, Margarida a voltar para casa. Regressou com ela a Paris e entregou-a a seus pais, que acabaram por mudar-se para uma vivenda onde Margarida podia tocar flauta o dia todo, sem incomodar os vizinhos.

5º A [lábios/ luz/ poeta]

O POETA E AS CRIANÇAS

Num dia cheio de luz, estavam dez crianças a brincar no jardim, seis meninos e quatro meninas. Entre elas estava um poeta a escrever um poema com a sua ajuda. O poema chamava-se “A magia dos lábios”, e falava sobre o poder que estes têm de dizer tantas palavras diferentes. Foi um dia maravilhoso e especial para todas as crianças e também para o poeta.

9º A [liberdade/ representar/ feio]
O SONHO E A PERSISTÊNCIA
Representar era uma palavra mágica para David. Este jovem, de 16 anos, sonhava vir a frequentar uma escola de teatro profissional. A sua ambição era ser actor. No entanto, os pais não incentivavam este sonho de David, pois queriam, para o filho, um futuro melhor. Mas David não desistia, porque só quando representava sentia liberdade de ser o que queria e não apenas o que na realidade era. Para ele, o palco da vida era demasiado feio, por isso preferia o palco do teatro, onde existia espaço para a ilusão, a ficção e a fantasia. Com a sua persistência, David acabou por convencer os pais. Após o seu décimo oitavo aniversário David inscreveu-se na Escola Superior de Teatro, e rumou a Lisboa.

6º A [campo/ sol/ fantasma]
O FANTASMA E O TESOURO

Há muitos, muitos anos, numa aldeia pequena de Trás-os-Montes - Vila Perdida - existia uma casa assombrada. A casa, uma quinta muito antiga, ficava junto de um campo de trigo imenso. A dois quilómetros da quinta, existia um cemitério abandonado onde nunca batia o sol. Isto porque o cemitério estava rodeado de frondosas árvores. Contava-se na aldeia que a casa era habitada por um fantasma. Constava-se, também, que o dito fantasma teria deixado um tesouro enterrado no trigal, antes de morrer, e que costumava passar por lá, para vigiar e proteger o tal tesouro. Até hoje, nunca se confirmou a existência do fantasma e o tesouro nunca foi encontrado.

8º C [vassoura/ bebé/ escola]
O PRIMEIRO DIA DE AULAS
Numa sexta-feira de muito calor a escola preparava-se para o início de mais um ano lectivo. Os alunos sentiam-se eufóricos e excitados com as perspectivas de virem a conhecer novos colegas e novos professores. Estávamos todos na cantina, a almoçar, quando algo de insólito aconteceu. Uma vassoura, até então esquecida num canto qualquer, ganhou vida e começou a varrer tudo em seu redor, brusca e implacavelmente. Os alunos, estupefactos e incrédulos, avançaram com explicações para tão inaudito cenário. Seria um sonho colectivo? Seria magia? Haveria um feiticeiro entre eles? O enigma desfez-se quando todos perceberam a presença de ínfimos seres fantásticos, cinzentos como o chão da cantina, fazendo deslizar, desenvoltamente, a base cabeluda da vassoura. Uma das criaturas, com ar maroto e atrevido, aproximou-se da Catarina, do 6º B, e disse: - Oi, bebé, estás cá? Foi então que todos perceberam que talvez a Catarina não fosse mesmo deste mundo.

2º Desafio: A construção de um poema a partir desta expressão do poeta António Barbosa Bacelar: "Ando sem me mover e depois falo calado"

7º A
Viajo pelo mundo

…..E sinto-me

…………Parado

Abro um portão

……Que permanece

………Fechado

……Salto um muro

……….Encontro um telhado

Sinto-me sozinho

….Mas estou sempre

……….Acompanhado

Estou dentro de um quadro

…….Mas sinto-me

………….Desenquadrado

Estou dentro de uma história

………..Que sonhei

…………….No mês passado


…….[Mas que grande contradição

……………..Estar nesta situação]

9º B

O mundo parece estar

parado

Não sei se a lágrima transmite

Dor

Que se passa comigo?

Ando perdido sem me encontrar

Percorro vales e matos

E não me localizo

Olho-me ao espelho

E não vejo ninguém

Tenho perguntas

Ando sem me mover

- E morro

Sem antes viver -

7º C

do lugar de onde me levam

nunca sei onde vou ter

corro as páginas

repetidamente

incapaz de me ler

penso e repenso

no que vai acontecer

mas atravesso o pensamento

e permaneço

sem me mover

5º B

Corro sem direcção

Como se não houvesse

Caminho

Viajo

Ao sabor do vento

E caio

Na escuridão da noite

Sou uma estrela

Cadente

E procuro a solução


5º A

Grito alto em silêncio

corro

mesmo

sem pés

Viajo num sonho

De olhos

Abertos

E perco-me

Na pressa do pensamento

9º A

Parto

sem despedidas

e chego

sem o calor do acolhimento

viajo

à eternidade

e permaneço

num momento

6º A

Corro quieto

E dou a volta ao mundo

Passeio sozinho

Envolto no vazio

Atravesso o universo

Com o pensamento

Sou infinito

Num momento

8º C

Imagino que te vejo

..............................E os meus olhos não estão lá

.......................... Estão fechados

.........Em esferas

- de castigo -

Na clausura da ausência

- E esta angústia

.................. A fazer-me chegar

....................A este lugar

De nadas -

segunda-feira, 4 de abril de 2011

NÃO DESFOLHEM OS LIVROS...

Um dos erros mais frequentes da nossa verbalização quotidiana é este: passamos o tempo a desfolhar livros, agendas, cadernos, revistas, enfim, tudo o que tem páginas. O que é uma pena, porque este é o verdadeiro significado de desfolhar:

Tirar as folhas a;

Proceder à descamisada de (o milho);

Perder a folha;

Perder o viço, a frescura;

Extinguir-se pouco a pouco.

Ora, julgo que ninguém estará interessado em infligir estas maldades aos livros. Então, passemos a folhear os livros e tudo o resto que tenha folhas de papel. Porque folhear, sim, significa virar as folhas a (um livro), manusear, percorrer, dividir em folhas.

E folha a folha, cresçamos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

aprendiza



Para quem, como eu, tinha a dúvida, fica o esclarecimento: "aprendiza" é mesmo o feminino de "aprendiz".
Por norma, os substantivos masculinos com a terminação -iz não têm outra forma para o feminino. Além desta excepção existem outras, como juiz e petiz, igualmente com feminino em -iza. (fonte: FLiP)

Devo admitir que acho a palavra inestética, mas regras são regras, e confesso que já tinha quebrado esta, ainda que informalmente.

Sempre a aprender, sempre a crescer...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Das simbioses e inversões das partilhas

No dia 3 de Fevereiro voltei à Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé, desta feita para apresentar o meu livro "Sou, e Sinto" aos alunos do 11º e 12º anos do Agrupamento de Escolas daquela vila. Da experiência ficou-me, especialmente, a noção de que a poesia era ainda estranha em muitos deles, mas já se entranhava em muitos outros. Confesso que experimentei alguma ansiedade por sentir que me entregava à tarefa de cativar aqueles jovens para um possível enamoramento com o ofício poético. E as minhas elevadas expectativas eram, ainda, justificadas pelo facto de saber que todos haviam lido e feito uma breve análise a alguns poemas, e que alguns jovens iriam mesmo ler alguns deles. Seguindo a cadência ditada pelo alinhamento, depois de uma exposição cuidada, que aproveito para agradecer, de um escritor muito mais experiente do que eu, o meu amigo Henrique Pedro, e das minhas próprias palavras - muito breves – propus à tenra plateia das minhas palavras que me questionasse sobre tudo o que lhes suscitasse curiosidade no âmbito desse intenso universo que é a poesia. Essa era, de resto, a minha própria (e simbiótica) curiosidade. Queria, honestamente, que o momento fosse muito mais cheio deles do que de mim. Queria ser eu, egoisticamente, a crescer com eles. E cresci, claro, como cresço sempre que me partilho. É que a matemática da poesia inverte todas as lógicas conhecidas, e a divisão da matéria é sempre a multiplicação das sensações. E cheguei inclusivamente a adicionar-me sentires novos quando ouvi o eco das páginas daquele livro aberto e reaberto a espalhar-se pelo espaço silencioso e disponível pela voz dos jovens leitores das minhas construções, assim reconstruídas. Enfim, foi uma sucessão pouco linear de emoções que me ficará, por certo, na memória. Mas um dos pontos altos dessa sucessão, foi sem dúvida, esta pergunta: de onde me vinham os conhecimento de geologia*! O que me deu oportunidade de esclarecer que um poeta não sabe tudo, mas quando quer comparar os processos da alma com os fenómenos da natureza, investiga - com método e com rigor, como um verdadeiro cientista, aproveito para acrescentar. Por tudo isto, sou muito grata a todos os que contribuíram para a consumação deste momento. ___________________________________________________

*A propósito deste poema:


Fui,

Às tuas mãos,

Jade extraído

Do toque

- Rendido

À força

Das leis

De uma geologia

Maior -


Fui,

Às tuas mãos,

Rocha ígnea

Curada

Na secura

De sedimentações

Antigas

E sábias

- Talvez

Diagénese

De uma lava

Que também fui,

Afinal -


Fui,

Às tuas mãos,

Lume

Cristalizado

No soluto

Dos olhos


- Para ser

Hoje

Ventre

De uma lágrima

Magmatizada

No mapa litológico

Da tua ausência…


Reportagem da Localvisão aqui

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mexendo nas palavras, para lá da serra gelada

A primeira turma que recebi no pequeno e acolhedor auditório da Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé chegou em alvoriço, arrastando para dentro do espaço já morno os aromas do frio nordestino. Eram 9 horas da manhã. Nos seus rostos brilhavam, como traços roubados à geada que atapetava o caminho que ali viera dar, pontos de interrogação e de exclamação intensos. Mas a sede que ainda não sentiam das palavras que ainda não conheciam haveria de transformar os pontos em linhas de pensamento e expressão. Quebrado o gelo com o apetite dos desafios, gerou-se luz nos dedos dos pequenos estudantes. No rosto de todas as cerca de 80 crianças me foi dada a oportunidade de contemplar laivos de esperança a irradiar da imaginação desbravada. Mas houve um rosto que guardarei como embaixador, na minha caixa de memórias, de todos eles. Por isso, para ti, João, uma mensagem de fé na tua capacidade criadora e na sensibilidade do teu pensar, ainda criança: não desistas de crescer. Ficha técnica Data: 25 de Janeiro de 2011 Local: Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé Acções: Mexer com as Palavras – quatro sessões Participantes: duas turmas de 8º ano, uma turma de 7º ano e uma turma de 6º ano - Agrupamento de Escolas de AF _________________________________________________________________

1º Desafio: a construção de uma pequena história a partir de três palavras escolhidas de uma lista de sugestões dos alunos. 6ºB [vermelho/ saxofone/ estudar] O saxofone que apanhou chuva Era uma vez um saxofone vermelho que gostava muito de ir à escola, onde aprendia a tocar as mais diversas peças musicais. Num certo dia chuvoso o saxofone teve preguiça de estudar e, em vez de ficar em casa a praticar para o teste do dia seguinte, foi para a rua brincar à chuva. Resultado: o saxofone não só não estudou para o teste, como ainda ficou rouco, entupido e desafinado. No dia seguinte, ao ver o estado em que o saxofone se encontrava, o professor recomendou-lhe que fosse ao médico, que lhe receitou Brufen e o mandou para casa descansar. Moral da história: se és um instrumento musical, não brinques à chuva! Ou se fores brincar à chuva, leva galochas e um guarda-chuva! 8ºB [sonhar/ gritos/ mesa] O sonho da zebra Naquele dia passei a tarde a jogar futebol e cheguei a casa muito cansada. Tão cansada que adormeci em cima da mesa antes mesmo de começar a lanchar. De repente dei por mim a jogar futebol novamente. Mas a bola com que eu e os meus amigos jogávamos não era redonda, mas hexagonal. Foi então que o Pedro, que parecia ter muito mais força do que na realidade tinha, deu um pontapé na bola que voou a uma velocidade incrível, indo partir a janela de uma casa que parecia assombrada. Ainda que um pouco assustados, decidimos ir buscar a bola. Quando entrámos na casa, abandonada e sombria, deparámo-nos com uma mesa branca com riscas pretas, cheia de teias de aranha, e com apenas três patas. Inesperadamente a mesa ergueu-se, enorme e altiva, transformando-se em zebra. Apavorados, desatámos aos gritos. E o medo cresceu ainda mais quando a zebra pareceu vir ao meu encontro. Parecia ir devorar-me. Foi então que levantei a cabeça e lá estava a minha zebra de pelúcia. Afinal, estivera a sonhar. 7ºB [árvore/ sonho/ esperto] A árvore bailarina Outono era uma árvore curiosa que vivia numa floresta longínqua. Tinha o tronco roxo e as suas folhas eram amarelas. Outono gostava especialmente dos dias ventosos, porque o seu sonho era ser bailarina. E por isso gostava tanto de sentir a brisa roçando-lhe e embalando-lhe as folhas. Um dia um certo pássaro veio contar-lhe que se aproximava um tornado, o tornado Esperto. Apesar de um pouco assustada, pois sabia o que os tornados podiam fazer às árvores, Outono ficou expectante pelo que iria acontecer. Mas o que ela não sabia era que Esperto tinha um dom, o poder de ler os pensamentos das árvores. Além disso, tinha, também, o dom da magia. Finalmente o dia chegou. Em poucos segundos o vento soprou tão intensamente que Outono sentiu as suas raízes separarem-se da terra, e, voando, sentiu todos os ramos dançando como nunca. Outono, embora feliz, temeu o pior, mas o vento abrandou e Esperto não tardou a devolver Outono e as suas raízes à terra. E aquela árvore, curiosa e sonhadora, nunca mais esqueceu o dia em que, por breves segundo, foi uma linda bailarina.


8ºA [rato/ voar (voou)/ feio/a] O rato turista

Um dia apareceu na minha cozinha um rato turista. Era um rato estranho e misterioso. Carregava uma pesada mochila cor-de-rosa, e usava uns óculos “Prada” triangulares. Sobressaía na sua figura um gorro branco de pêlo de coelho e uns largos e compridos caracóis sobrando desse gorro. Usava, ainda, um casaco de penas. Ao ver-me, o rato assustou-se, e para espanto meu, abriu o seu casaco de penas e voou da fruteira para o chão. Mas a cena ficou feia quando o rato caiu, não no chão, mas no dorso do meu gato. Mas, de novo para espanto meu, o meu gato, que era esperto e traquina, não comeu o rato. Em vez disso, aproveitou a sua boleia e tornou-se, também ele, um gato turista. 2º Desafio: A construção de um poema a partir desta expressão do poeta António Barbosa Bacelar:


"Ando sem me mover e depois falo calado" 6º B

........



Sou um golfinho voador

......Sou como o luar

................sou pégaso

...................



Vejo com os olhos fechados

....................E os ouvidos enclausurados

....................



Sou um pónei voador

............



Sou sangue vivo no escuro

.....


Vejo e transformo-me

.................de olhos vendados

.................................



Sou um vampiro fluorescente


Sou um demónio transversal

................

8ª B

......


Voo sem asas

E ando com o pensamento


Sonho acordado e grito sem voz


Caminho no mar e nado na terra

Visto-me de água e sou vaga de frio


Ardo em fogo e vivo o amor.

Visto-me de lava e sinto-me

Ardente


Nascer é subir ao mundo

e morrer

é descer à terra







7º B


Pareço um Homem Mas não sou. Sou uma flor do teu jardim Sinto-me pequeno Mas sou feliz assim Visto-me de carnaval e finjo Que sou o sol Sou o teu nome escrito na areia Sou precioso brincando com o teu nome


8ºA


Passeio os meus sonhos


nas nuvens


da imaginação



Mergulho no alcatrão


dos pensamentos


e o mar


é o meu alento


não tenho corpo


mas flutuo


não tenho mãos


mas escrevo


tenho olhos mas


não vejo


voo sem asas


num céu


de nuvens vermelhas




Reportagem da Localvisão aqui

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os trocos do pensamento

"As palavras são os trocos do pensamento. Há faladores que nos pagam em moedas de dez tostões. Outros, pelo contrário, dão-nos peças de ouro."

Jules Renard*

*Pierre-Jules Renard, escritor e dramaturgo francês nascido em 1864. Considerado "moralista amargo" a sua escrita tem uma forte conotação naturalista e realista. Escreveu obras como "Le Pain de Ménage" (1898), e "Plaisir de Rompre" (1897) e Poil de Carotte (1894). Esta última consiste um enredo construído sobre a marginalização das crianças ruívas no contexto da sociedade de então.
Morreu em 1910.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Hemingway: as palavras de uma existência


Ernest Hemingway (1899-1961) foi um escritor que deambulou pelas palavras com a inquietude dos génios.
A amplitude da sua visão da humanidade, que terá começado a desbravar aos 17 anos quando iniciou a sua carreira de redactor num jornal (Kansas), viria a revelar-se como factor determinante de mobilização e transformação da sua habilidade com as palavras numa escrita singular e intensa.
As suas experiências de vida haveriam de, todas elas, de alguma forma, plasmar-se nas obras literárias que o imortalizaram como escritor.
Enquanto condutor de ambulâncias (voluntário) na 1ª Guerra Mundial, em Itália, onde viria a ser ferido e posteriormente condecorado, conheceu e apaixonou-se pela mulher que o inspiraria a escrever “Adeus às armas” (1929), a enfermeira Agnes Von Kurowsky.
A sua experiência enquanto membro da comunidade de escritores expatriados em Paris, conhecida como "geração perdida”, acabaria descrita na obra “O Sol Também Se Levanta” (1926).
O universo construído sobre os quatro anos que viveu em Espanha, país com o qual teceu grandes afinidades afectivas e ideológicas, e onde, depois de cobrir, como repórter, a Guerra Civil (1936-1939), se tornaria toureiro amador, vê-se transferido para a obra “Por Quem os Sinos Dobram” (1940).
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Hemingway mudar-se-ia para Cuba, que já visitava anualmente desde a década de 30 entre os meses de Maio e Julho, para a pesca do agulhão, e aí escreve “O Velho e o Mar” (1952), considerada obra maior deste escritor.
Em 1954 o valor universal da obra de Hemingway foi reconhecido através da atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Na altura a Academia Sueca justificou a escolha com a sua "mestria na arte narrativa e pela sua influência no estilo da escrita contemporânea".

O que pode ensinar-nos Hemingway

Recentemente, Larry W. Phillips, jornalista e escritor americano, compilou num só livro excertos de cartas, obras e entrevistas em que o autor reflecte sobre o trabalho de escritor, o que poderá ser uma grande ajuda na compreensão do “estilo que o consagrou como um dos grandes nomes da prosa em inglês do século XX”, como nos diz Alexandre Pilati*, que se dedicou a traduzir alguns excertos de “Hemingway: on writing”. Deixo-vos alguns desses excertos publicados por A. Pilati no seu blogue.

“Todos os bons livros são semelhantes no fato de que são verdadeiros como se tivessem de fato ocorrido e também porque, depois que você termina de lê-los, sente-se como se tudo tivesse acontecido com você mesmo e que, consequentemente, tudo pertence a você; o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a tristeza, as pessoas e os lugares e como estava o tempo.” (By-line: Ernest Hemingway, p.184)
“Então há um outro segredo. Não há nenhum simbolismo (soletrado). O mar é o mar. O velho é um velho. O garoto é um garoto e o peixe é um peixe. O tubarão é todos os tubarões, nem melhor nem pior. Todo o simbolismo de que as pessoas falam é besteira. O que está além é o que você vê além quando compreende.” (para Bernard Berenson, 1952
Selected Letters, p. 780.)

“No caso dos verdadeiros grandes textos, você nunca saberá como eles foram feitos, não importa quantas vezes você os releia. Isso porque há um mistério em todo grande texto e esse mistério não se exibe. Ele persiste, e será sempre válido. Cada vez que você reler o texto, perceberá ou aprenderá algo novo.” (Para Harvey Breit, 1952. Selected Letters, p. 770)

“Durante toda a minha vida eu olhei para as palavras como que pensando que as via pela primeira vez…” (Para Mary Welsh, 1945; Selected Letters, p. 583)

“Boa escrita é escrita da verdade. Se um homem está criando uma história, ela será verdadeira em termos proporcionais à quantidade de conhecimento de vida que ele tem e quão consciente ele é; de modo que quando ele cria alguma coisa, é como ela existisse verdadeiramente.”
(By-Line: Ernest Hemingway, p.215)
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*Escritor, crítico literário e professor de Literatura Brasileira na UnB -Universidade de Brasília.
Seu blogue: http://www.alexandrepilati.com/blog