sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Hemingway: as palavras de uma existência


Ernest Hemingway (1899-1961) foi um escritor que deambulou pelas palavras com a inquietude dos génios.
A amplitude da sua visão da humanidade, que terá começado a desbravar aos 17 anos quando iniciou a sua carreira de redactor num jornal (Kansas), viria a revelar-se como factor determinante de mobilização e transformação da sua habilidade com as palavras numa escrita singular e intensa.
As suas experiências de vida haveriam de, todas elas, de alguma forma, plasmar-se nas obras literárias que o imortalizaram como escritor.
Enquanto condutor de ambulâncias (voluntário) na 1ª Guerra Mundial, em Itália, onde viria a ser ferido e posteriormente condecorado, conheceu e apaixonou-se pela mulher que o inspiraria a escrever “Adeus às armas” (1929), a enfermeira Agnes Von Kurowsky.
A sua experiência enquanto membro da comunidade de escritores expatriados em Paris, conhecida como "geração perdida”, acabaria descrita na obra “O Sol Também Se Levanta” (1926).
O universo construído sobre os quatro anos que viveu em Espanha, país com o qual teceu grandes afinidades afectivas e ideológicas, e onde, depois de cobrir, como repórter, a Guerra Civil (1936-1939), se tornaria toureiro amador, vê-se transferido para a obra “Por Quem os Sinos Dobram” (1940).
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Hemingway mudar-se-ia para Cuba, que já visitava anualmente desde a década de 30 entre os meses de Maio e Julho, para a pesca do agulhão, e aí escreve “O Velho e o Mar” (1952), considerada obra maior deste escritor.
Em 1954 o valor universal da obra de Hemingway foi reconhecido através da atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Na altura a Academia Sueca justificou a escolha com a sua "mestria na arte narrativa e pela sua influência no estilo da escrita contemporânea".

O que pode ensinar-nos Hemingway

Recentemente, Larry W. Phillips, jornalista e escritor americano, compilou num só livro excertos de cartas, obras e entrevistas em que o autor reflecte sobre o trabalho de escritor, o que poderá ser uma grande ajuda na compreensão do “estilo que o consagrou como um dos grandes nomes da prosa em inglês do século XX”, como nos diz Alexandre Pilati*, que se dedicou a traduzir alguns excertos de “Hemingway: on writing”. Deixo-vos alguns desses excertos publicados por A. Pilati no seu blogue.

“Todos os bons livros são semelhantes no fato de que são verdadeiros como se tivessem de fato ocorrido e também porque, depois que você termina de lê-los, sente-se como se tudo tivesse acontecido com você mesmo e que, consequentemente, tudo pertence a você; o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a tristeza, as pessoas e os lugares e como estava o tempo.” (By-line: Ernest Hemingway, p.184)
“Então há um outro segredo. Não há nenhum simbolismo (soletrado). O mar é o mar. O velho é um velho. O garoto é um garoto e o peixe é um peixe. O tubarão é todos os tubarões, nem melhor nem pior. Todo o simbolismo de que as pessoas falam é besteira. O que está além é o que você vê além quando compreende.” (para Bernard Berenson, 1952
Selected Letters, p. 780.)

“No caso dos verdadeiros grandes textos, você nunca saberá como eles foram feitos, não importa quantas vezes você os releia. Isso porque há um mistério em todo grande texto e esse mistério não se exibe. Ele persiste, e será sempre válido. Cada vez que você reler o texto, perceberá ou aprenderá algo novo.” (Para Harvey Breit, 1952. Selected Letters, p. 770)

“Durante toda a minha vida eu olhei para as palavras como que pensando que as via pela primeira vez…” (Para Mary Welsh, 1945; Selected Letters, p. 583)

“Boa escrita é escrita da verdade. Se um homem está criando uma história, ela será verdadeira em termos proporcionais à quantidade de conhecimento de vida que ele tem e quão consciente ele é; de modo que quando ele cria alguma coisa, é como ela existisse verdadeiramente.”
(By-Line: Ernest Hemingway, p.215)
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*Escritor, crítico literário e professor de Literatura Brasileira na UnB -Universidade de Brasília.
Seu blogue: http://www.alexandrepilati.com/blog

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