quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mexendo nas palavras, para lá da serra gelada

A primeira turma que recebi no pequeno e acolhedor auditório da Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé chegou em alvoriço, arrastando para dentro do espaço já morno os aromas do frio nordestino. Eram 9 horas da manhã. Nos seus rostos brilhavam, como traços roubados à geada que atapetava o caminho que ali viera dar, pontos de interrogação e de exclamação intensos. Mas a sede que ainda não sentiam das palavras que ainda não conheciam haveria de transformar os pontos em linhas de pensamento e expressão. Quebrado o gelo com o apetite dos desafios, gerou-se luz nos dedos dos pequenos estudantes. No rosto de todas as cerca de 80 crianças me foi dada a oportunidade de contemplar laivos de esperança a irradiar da imaginação desbravada. Mas houve um rosto que guardarei como embaixador, na minha caixa de memórias, de todos eles. Por isso, para ti, João, uma mensagem de fé na tua capacidade criadora e na sensibilidade do teu pensar, ainda criança: não desistas de crescer. Ficha técnica Data: 25 de Janeiro de 2011 Local: Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé Acções: Mexer com as Palavras – quatro sessões Participantes: duas turmas de 8º ano, uma turma de 7º ano e uma turma de 6º ano - Agrupamento de Escolas de AF _________________________________________________________________

1º Desafio: a construção de uma pequena história a partir de três palavras escolhidas de uma lista de sugestões dos alunos. 6ºB [vermelho/ saxofone/ estudar] O saxofone que apanhou chuva Era uma vez um saxofone vermelho que gostava muito de ir à escola, onde aprendia a tocar as mais diversas peças musicais. Num certo dia chuvoso o saxofone teve preguiça de estudar e, em vez de ficar em casa a praticar para o teste do dia seguinte, foi para a rua brincar à chuva. Resultado: o saxofone não só não estudou para o teste, como ainda ficou rouco, entupido e desafinado. No dia seguinte, ao ver o estado em que o saxofone se encontrava, o professor recomendou-lhe que fosse ao médico, que lhe receitou Brufen e o mandou para casa descansar. Moral da história: se és um instrumento musical, não brinques à chuva! Ou se fores brincar à chuva, leva galochas e um guarda-chuva! 8ºB [sonhar/ gritos/ mesa] O sonho da zebra Naquele dia passei a tarde a jogar futebol e cheguei a casa muito cansada. Tão cansada que adormeci em cima da mesa antes mesmo de começar a lanchar. De repente dei por mim a jogar futebol novamente. Mas a bola com que eu e os meus amigos jogávamos não era redonda, mas hexagonal. Foi então que o Pedro, que parecia ter muito mais força do que na realidade tinha, deu um pontapé na bola que voou a uma velocidade incrível, indo partir a janela de uma casa que parecia assombrada. Ainda que um pouco assustados, decidimos ir buscar a bola. Quando entrámos na casa, abandonada e sombria, deparámo-nos com uma mesa branca com riscas pretas, cheia de teias de aranha, e com apenas três patas. Inesperadamente a mesa ergueu-se, enorme e altiva, transformando-se em zebra. Apavorados, desatámos aos gritos. E o medo cresceu ainda mais quando a zebra pareceu vir ao meu encontro. Parecia ir devorar-me. Foi então que levantei a cabeça e lá estava a minha zebra de pelúcia. Afinal, estivera a sonhar. 7ºB [árvore/ sonho/ esperto] A árvore bailarina Outono era uma árvore curiosa que vivia numa floresta longínqua. Tinha o tronco roxo e as suas folhas eram amarelas. Outono gostava especialmente dos dias ventosos, porque o seu sonho era ser bailarina. E por isso gostava tanto de sentir a brisa roçando-lhe e embalando-lhe as folhas. Um dia um certo pássaro veio contar-lhe que se aproximava um tornado, o tornado Esperto. Apesar de um pouco assustada, pois sabia o que os tornados podiam fazer às árvores, Outono ficou expectante pelo que iria acontecer. Mas o que ela não sabia era que Esperto tinha um dom, o poder de ler os pensamentos das árvores. Além disso, tinha, também, o dom da magia. Finalmente o dia chegou. Em poucos segundos o vento soprou tão intensamente que Outono sentiu as suas raízes separarem-se da terra, e, voando, sentiu todos os ramos dançando como nunca. Outono, embora feliz, temeu o pior, mas o vento abrandou e Esperto não tardou a devolver Outono e as suas raízes à terra. E aquela árvore, curiosa e sonhadora, nunca mais esqueceu o dia em que, por breves segundo, foi uma linda bailarina.


8ºA [rato/ voar (voou)/ feio/a] O rato turista

Um dia apareceu na minha cozinha um rato turista. Era um rato estranho e misterioso. Carregava uma pesada mochila cor-de-rosa, e usava uns óculos “Prada” triangulares. Sobressaía na sua figura um gorro branco de pêlo de coelho e uns largos e compridos caracóis sobrando desse gorro. Usava, ainda, um casaco de penas. Ao ver-me, o rato assustou-se, e para espanto meu, abriu o seu casaco de penas e voou da fruteira para o chão. Mas a cena ficou feia quando o rato caiu, não no chão, mas no dorso do meu gato. Mas, de novo para espanto meu, o meu gato, que era esperto e traquina, não comeu o rato. Em vez disso, aproveitou a sua boleia e tornou-se, também ele, um gato turista. 2º Desafio: A construção de um poema a partir desta expressão do poeta António Barbosa Bacelar:


"Ando sem me mover e depois falo calado" 6º B

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Sou um golfinho voador

......Sou como o luar

................sou pégaso

...................



Vejo com os olhos fechados

....................E os ouvidos enclausurados

....................



Sou um pónei voador

............



Sou sangue vivo no escuro

.....


Vejo e transformo-me

.................de olhos vendados

.................................



Sou um vampiro fluorescente


Sou um demónio transversal

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8ª B

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Voo sem asas

E ando com o pensamento


Sonho acordado e grito sem voz


Caminho no mar e nado na terra

Visto-me de água e sou vaga de frio


Ardo em fogo e vivo o amor.

Visto-me de lava e sinto-me

Ardente


Nascer é subir ao mundo

e morrer

é descer à terra







7º B


Pareço um Homem Mas não sou. Sou uma flor do teu jardim Sinto-me pequeno Mas sou feliz assim Visto-me de carnaval e finjo Que sou o sol Sou o teu nome escrito na areia Sou precioso brincando com o teu nome


8ºA


Passeio os meus sonhos


nas nuvens


da imaginação



Mergulho no alcatrão


dos pensamentos


e o mar


é o meu alento


não tenho corpo


mas flutuo


não tenho mãos


mas escrevo


tenho olhos mas


não vejo


voo sem asas


num céu


de nuvens vermelhas




Reportagem da Localvisão aqui

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