quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ainda mexendo nas palavras

Na imagem: poema da turma 7º A

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Esta semana regressei a Alfândega da Fé para a realização de mais oito oficinas de escrita com os alunos dos segundo e terceiro ciclos. Na sequência deste projecto, alargado, assim, a todos os jovens desde o quinto ao nono ano, o município está a promover, até ao fim do ano lectivo, um concurso literário aberto a todos estes alunos, com vista a motivar e a premiar a criatividade e o rigor na escrita. Para mim foi, de novo, uma experiência enriquecedora e uma oportunidade de crescimento. Sou grata a todos os meninos e meninas, particularmente aqueles que se entregaram honestamente aos desafios propostos, aceitando "sujar as mãos" nesta aventura de mexer nas palavras. Grata, ainda, aos professores, pela sua valiosa colaboração. Deixo-vos os textos e os poemas que resultaram destes três dias de intenso treino da imaginação e da escrita.


Ficha técnica:
Data: 5, 6 e 7 de Abril de 2011

Local: Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé
Acções: Mexer com as Palavras – oito sessões
Participaram: duas turmas de 5º ano, uma turma de 6º ano, duas turmas de 7º ano, uma turma de 8º ano, e duas turmas de 9º ano Agrupamento de Escolas de AF
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NOTA: Os textos e os poemas aqui publicados não foram alterados, salvo raríssimas excepções. O objectivo deste projecto é que as crianças sintam como suas as palavras e as respectivas construções, dando-lhes a garantia de que são capazes de tanto. Ao lê-los, devemos também considerar as circunstâncias limitativas em termos de tempo em que foram escritos.

 
1º Desafio: a construção de uma pequena história ou um pequeno texto a partir de três palavras escolhida de uma lista de sugestões dos alunos
7ºA [flor/ paz / tinhosa]

FLOR E A PAZ
Flor era uma menina que vivia numa aldeia do Alentejo. Flor tinha vindo de um país em guerra e era órfã, porque os seus pais tinham sido mortos pelos soldados rebeldes. Flor havia trazido do seu país uma cadela chamada Tinhosa. Tinhosa era a companhia de Flor, que só no Alentejo conheceu a paz.

9º B [esmeralda / lenço/ música]

O LENÇO MÁGICO

Magda era uma princesa que tinha um lenço mágico. O lenço de Magda fora-lhe oferecido pela madrinha Esmeralda no dia do seu nascimento. Era um lenço encantado que mudava de cor consoante os sentimentos e emoções de Magda. Quando a princesa estava triste, o lenço escurecia. Quando ela estava alegre, o lenço ficava amarelo. Por vezes Magda sentia muitas emoções ao mesmo tempo, e o lenço ficava colorido como um arco-íris. Um dia Magda passeava nos jardins do palácio quando chegou aos seus ouvidos uma música tão encantadora como o canto dos pássaros. Curiosa com a origem daquele som deslumbrante. Magda correu na sua direcção. Com a pressa, a princesa nem reparou que o seu lenço voara. Já muito próxima do som, tropeçou e caiu. Ainda no chão, percebeu que alguém se aproximava. Levantou os olhos e viu, à sua frente, um príncipe num cavalo branco com uma flauta. Descendo do cavalo, dirigiu-se a Magda, ajudou-a a levantar-se, e perguntou-lhe: - Este lenço é seu? Magda pegou no lenço. Estupefacta, reparou que tinha uma cor que nunca antes tivera. E pensou: “Que sentimento é este?”

7º C [triste/ gato/ paixão]

O EQUÍVOCO

Num dia triste, com nuvens cinzentas e muita chuva, um gato passeava pelas ruas de Nova Iorque quando encontrou um antigo amigo. O gato, de seu nome Óscar, ficou contente com aquele encontro, já que estava bastante angustiado. Isto porque, não via a sua dona há alguns dias. Pensava ele que ela o tinha abandonado. Pluto, o cão que Óscar conhecera no canil havia muitos anos, ouviu as lamentações do seu amigo, sensibilizado. Pluto sabia da paixão de Óscar pela sua dona. Vaguearam juntos alguns dias pela cidade, até que Óscar decidiu voltar a casa. Para sua surpresa, encontrou a sua dona, triste e preocupada, que, ao vê-lo, ficou radiante. Afinal, a sua dona havia ido, apenas, numa viagem de negócios.

5ª B [rosa/ margarida/flauta]
A FUGA DE MARGARIDA
Há muitos, muitos anos, D. Rosa partiu numa viagem pelo mundo. A primeira cidade que D. Rosa visitou foi Paris. De Paris, foi para Roma, de comboio. Nesta viagem, D. Rosa conheceu Margarida, uma menina francesa. D. Rosa achou estranho o facto de a menina viajar sozinha, e meteu conversa com ela. Enquanto conversavam, D. Rosa descobriu que Margarida tinha fugido de casa. D. Rosa ficou preocupada. Foi conversando com a menina para tentar saber tudo sobre ela e, assim, poder ajudar. Entre outras coisas, D. Rosa descobriu que Margarida gostava muito de tocar flauta. E que os seus pais não a deixavam tocar tanto quanto ela queria. E por isso, fugira. D. Rosa convenceu, então, Margarida a voltar para casa. Regressou com ela a Paris e entregou-a a seus pais, que acabaram por mudar-se para uma vivenda onde Margarida podia tocar flauta o dia todo, sem incomodar os vizinhos.

5º A [lábios/ luz/ poeta]

O POETA E AS CRIANÇAS

Num dia cheio de luz, estavam dez crianças a brincar no jardim, seis meninos e quatro meninas. Entre elas estava um poeta a escrever um poema com a sua ajuda. O poema chamava-se “A magia dos lábios”, e falava sobre o poder que estes têm de dizer tantas palavras diferentes. Foi um dia maravilhoso e especial para todas as crianças e também para o poeta.

9º A [liberdade/ representar/ feio]
O SONHO E A PERSISTÊNCIA
Representar era uma palavra mágica para David. Este jovem, de 16 anos, sonhava vir a frequentar uma escola de teatro profissional. A sua ambição era ser actor. No entanto, os pais não incentivavam este sonho de David, pois queriam, para o filho, um futuro melhor. Mas David não desistia, porque só quando representava sentia liberdade de ser o que queria e não apenas o que na realidade era. Para ele, o palco da vida era demasiado feio, por isso preferia o palco do teatro, onde existia espaço para a ilusão, a ficção e a fantasia. Com a sua persistência, David acabou por convencer os pais. Após o seu décimo oitavo aniversário David inscreveu-se na Escola Superior de Teatro, e rumou a Lisboa.

6º A [campo/ sol/ fantasma]
O FANTASMA E O TESOURO

Há muitos, muitos anos, numa aldeia pequena de Trás-os-Montes - Vila Perdida - existia uma casa assombrada. A casa, uma quinta muito antiga, ficava junto de um campo de trigo imenso. A dois quilómetros da quinta, existia um cemitério abandonado onde nunca batia o sol. Isto porque o cemitério estava rodeado de frondosas árvores. Contava-se na aldeia que a casa era habitada por um fantasma. Constava-se, também, que o dito fantasma teria deixado um tesouro enterrado no trigal, antes de morrer, e que costumava passar por lá, para vigiar e proteger o tal tesouro. Até hoje, nunca se confirmou a existência do fantasma e o tesouro nunca foi encontrado.

8º C [vassoura/ bebé/ escola]
O PRIMEIRO DIA DE AULAS
Numa sexta-feira de muito calor a escola preparava-se para o início de mais um ano lectivo. Os alunos sentiam-se eufóricos e excitados com as perspectivas de virem a conhecer novos colegas e novos professores. Estávamos todos na cantina, a almoçar, quando algo de insólito aconteceu. Uma vassoura, até então esquecida num canto qualquer, ganhou vida e começou a varrer tudo em seu redor, brusca e implacavelmente. Os alunos, estupefactos e incrédulos, avançaram com explicações para tão inaudito cenário. Seria um sonho colectivo? Seria magia? Haveria um feiticeiro entre eles? O enigma desfez-se quando todos perceberam a presença de ínfimos seres fantásticos, cinzentos como o chão da cantina, fazendo deslizar, desenvoltamente, a base cabeluda da vassoura. Uma das criaturas, com ar maroto e atrevido, aproximou-se da Catarina, do 6º B, e disse: - Oi, bebé, estás cá? Foi então que todos perceberam que talvez a Catarina não fosse mesmo deste mundo.

2º Desafio: A construção de um poema a partir desta expressão do poeta António Barbosa Bacelar: "Ando sem me mover e depois falo calado"

7º A
Viajo pelo mundo

…..E sinto-me

…………Parado

Abro um portão

……Que permanece

………Fechado

……Salto um muro

……….Encontro um telhado

Sinto-me sozinho

….Mas estou sempre

……….Acompanhado

Estou dentro de um quadro

…….Mas sinto-me

………….Desenquadrado

Estou dentro de uma história

………..Que sonhei

…………….No mês passado


…….[Mas que grande contradição

……………..Estar nesta situação]

9º B

O mundo parece estar

parado

Não sei se a lágrima transmite

Dor

Que se passa comigo?

Ando perdido sem me encontrar

Percorro vales e matos

E não me localizo

Olho-me ao espelho

E não vejo ninguém

Tenho perguntas

Ando sem me mover

- E morro

Sem antes viver -

7º C

do lugar de onde me levam

nunca sei onde vou ter

corro as páginas

repetidamente

incapaz de me ler

penso e repenso

no que vai acontecer

mas atravesso o pensamento

e permaneço

sem me mover

5º B

Corro sem direcção

Como se não houvesse

Caminho

Viajo

Ao sabor do vento

E caio

Na escuridão da noite

Sou uma estrela

Cadente

E procuro a solução


5º A

Grito alto em silêncio

corro

mesmo

sem pés

Viajo num sonho

De olhos

Abertos

E perco-me

Na pressa do pensamento

9º A

Parto

sem despedidas

e chego

sem o calor do acolhimento

viajo

à eternidade

e permaneço

num momento

6º A

Corro quieto

E dou a volta ao mundo

Passeio sozinho

Envolto no vazio

Atravesso o universo

Com o pensamento

Sou infinito

Num momento

8º C

Imagino que te vejo

..............................E os meus olhos não estão lá

.......................... Estão fechados

.........Em esferas

- de castigo -

Na clausura da ausência

- E esta angústia

.................. A fazer-me chegar

....................A este lugar

De nadas -

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