quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quem escreve



Quem escreve quer morrer, quer renascer 

num ébrio barco de calma confiança. 

Quem escreve quer dormir em ombros matinais 

e na boca das coisas ser lágrima animal 

ou o sorriso da árvore. Quem escreve 

quer ser terra sobre terra, solidão 

adorada, resplandecente, odor de morte 

e o rumor do sol, a sede da serpente, 

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho, 

o negro meio-dia sobre os olhos. 

António Ramos Rosa*, in ACORDES


*Poeta português nascido em Faro em 1924, radicado em Lisboa desde a década de 60. É considerado um dos percursores da moderna poesia portuguesa e um dos maiores poetas contemporâneos do nosso país.
Foi fundador e co-director de algumas revistas, e colaborador em diversas publicações portuguesas, francesas, brasileiras e espanholas. Organizou e prefaciou várias antologias. Foi também responsável pela tradução de várias obras e publicou vários artigos em diversos jornais e revistas, revelando, também, grande talento como ensaísta. 
Recebeu ao longo do seu percurso literário vários prémios como o Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia, em 1980 (O incêndio dos aspectos), o Prémio Pessoa, em 1988, o Grande Prémio de Poesia APE/CTT, em1989 (Acordes), e o Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen, em 2005 (O poeta na rua. Antologia portátil).
Mas o seu reconhecimento ultrapassa as nossas fronteiras. Além de estar presente em muitas antologias estrangeiras viu já o seu nome na lista dos candidatos ao Prémio Nobel da Literatura e em 1992 venceu o Prémio Jean Malrieu para o melhor livro de poesia traduzido em França.

Sobre o poeta escreveu Eduardo Lourenço, na Revista Relâmpago, em 1999:
"A sua palavra poética vive e morre da vontade de circunscrever o espaço de sonho que separa ou une o absoluto e o nada. A sua visão e a sua aura consistem em dar um corpo de imagens e de metáforas a esta busca do que segundo ele mesmo, se não encontra. A fulgurância do real é inata na pupila, na imaginação, na palavra de Ramos Rosa. É o seu excesso que o fascina e o destrói. Nada há de mais claro neste poeta do nosso sul que o muro branco, a cal, a luz que os des-realiza. Obscura, impenetrável, anti-matéria dessa matéria fulgurante que nós vemos e nos vê, é a palavra poética que não pode substituir o real mas não pode ofuscar-se diante dele sob pena de não existir. Entre a “palavra e a coisa” – e não é um acaso que tenha sido Ramos Rosa o tradutor do memorável ensaio de Foucault – se abre aquele espaço que durante toda a sua vida tem oferecido aos desvelos do autor de “animal olhar” uma inesgotável fonte de perplexidade e de inspiração. O clássico caminho da metáfora não era o que se impunha para sobrevoar este campo minado."

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Escrever é isto

"Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida."

Agustina Bessa-Luís, in "Contemplação Carinhosa da Angústia"

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Al Berto: a irreverência e o Medo


“escrevia freneticamente. esvaziava-me deste último fôlego, deixava-me cair desamparado no fundo da prolongada noite. escrevia e rasgava as palavras que me anestesiavam. às vezes, lia jornais com seus intermináveis discursos cinzentos. desinteressei-me do que se passava à minha volta. é simples, tinha decidido que não leria mais jornais e começaria a escrever sempre em quadricromia.”

in "À Procura do Vento num Jardim d’Agosto"

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Al Berto, escritor e poeta maior da literatura portuguesa, nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948. Cresceu em Sines, e estudou pintura em Bruxelas, mas cedo decidiu que era a escrita a arte da sua vida, e em 1974, já em Portugal, publicou o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”. Este é também o primeiro livro da antologia O MEDO, editada em 1987, e que viria a receber, em 1988, o Prémio Pen Club de Poesia.
A antologia viria a ser reeditada em 1991 e em 1998, em ambos os casos acrescentada dos seus textos poéticos posteriores a 1987. A versão final viria, ainda, a conhecer nova edição no ano 2000.
Na prosa, Al Berto deixou-nos também importantes obras: “Meu Fruto de Morder, Todas as Horas” (1980), Lunário (1988) e “O Anjo Mudo” (1993).
Al Berto morreu precocemente em Lisboa, em 1997, vitimado por um linfoma.  
Em 2007 foi editada uma obra com textos do autor sob o título “Dispersos”.
Marcadamente autobiográfica, a escrita de Al Berto veio trazer para o seio do universo poético o desejo, a sexualidade e o corpo, novas abordagens poéticas que suscitaram debates e mexeram com os antigos paradigmas literários. Uma escrita irreverente, moderna, urbana, não raras vezes reveladora das suas vivências à margem de todas as regras, ao sabor de todos os excessos, mas também pejada de melancolia e angústia. Como se à procura de um sentido para a existência. Uma procura que se revelaria infindável para este escritor, talvez demasiado sensível para qualquer sociedade. Talvez demasiado grande para este mundo.

o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias

in "Uma Existência de Papel"