terça-feira, 16 de agosto de 2011

Al Berto: a irreverência e o Medo


“escrevia freneticamente. esvaziava-me deste último fôlego, deixava-me cair desamparado no fundo da prolongada noite. escrevia e rasgava as palavras que me anestesiavam. às vezes, lia jornais com seus intermináveis discursos cinzentos. desinteressei-me do que se passava à minha volta. é simples, tinha decidido que não leria mais jornais e começaria a escrever sempre em quadricromia.”

in "À Procura do Vento num Jardim d’Agosto"

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Al Berto, escritor e poeta maior da literatura portuguesa, nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948. Cresceu em Sines, e estudou pintura em Bruxelas, mas cedo decidiu que era a escrita a arte da sua vida, e em 1974, já em Portugal, publicou o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”. Este é também o primeiro livro da antologia O MEDO, editada em 1987, e que viria a receber, em 1988, o Prémio Pen Club de Poesia.
A antologia viria a ser reeditada em 1991 e em 1998, em ambos os casos acrescentada dos seus textos poéticos posteriores a 1987. A versão final viria, ainda, a conhecer nova edição no ano 2000.
Na prosa, Al Berto deixou-nos também importantes obras: “Meu Fruto de Morder, Todas as Horas” (1980), Lunário (1988) e “O Anjo Mudo” (1993).
Al Berto morreu precocemente em Lisboa, em 1997, vitimado por um linfoma.  
Em 2007 foi editada uma obra com textos do autor sob o título “Dispersos”.
Marcadamente autobiográfica, a escrita de Al Berto veio trazer para o seio do universo poético o desejo, a sexualidade e o corpo, novas abordagens poéticas que suscitaram debates e mexeram com os antigos paradigmas literários. Uma escrita irreverente, moderna, urbana, não raras vezes reveladora das suas vivências à margem de todas as regras, ao sabor de todos os excessos, mas também pejada de melancolia e angústia. Como se à procura de um sentido para a existência. Uma procura que se revelaria infindável para este escritor, talvez demasiado sensível para qualquer sociedade. Talvez demasiado grande para este mundo.

o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias

in "Uma Existência de Papel"

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