sábado, 17 de setembro de 2011

Zulmira morreu 1: Da sobrevivência e da morte


Faz por estes dias um ano que Zulmira se suicidou. Zulmira, a mulher do sapateiro, como era conhecida na terra. Um suicídio infeliz (serão todos os suicídios infelizes?). Muito mais infeliz porque a mulher, falecida pela força do desespero (ou da lucidez?), deixou três filhos menores. O pior de uma morte precoce é sempre os filhos que se deixam. E o grito que se lhes deixa nos olhos, para sempre.
Diz-se na terra daquela mulher desesperada (ou demasiado lúcida?) que foi muito maltratada pelo seu marido desde os tempos de namoro. A violência ter-se-á intensificado ao longo da vida conjugal. Os três filhos nasceram entretanto, nos intervalos fugazes da tortura.
Um dia Zulmira, desesperada, descobriu uma garrafa de vodka. Ouvira em tempos dizer que aquele veneno incolor, transparente como a paz, de que na verdade nunca aprenderia o nome, adormecia a dor. E cansada de se doer, a mulher desesperada (ou demasiado lúcida), bebeu os primeiros tragos. Percebeu, então, que há venenos que nos matam de uma tal forma que quase nos permitem querer viver. E nunca mais parou. Quando tudo doía demais, bebia. Quando já tinha saudades do desenho de uma gargalhada articulando-se-lhe no rosto, bebia. Sempre que tudo se assumia insuportavelmente real, bebia. E assim adormecia do cansaço do desespero. E da lucidez.
Em 1897 o sociólogo francês Émile Durkheim veio mexer nas teorias que confirmavam o suicídio como um acto meramente individual, e defender que, afinal, havia muito mais de social na sua origem. Num estudo que viria a tornar-se uma obra de referência na história da sociologia, “O Suicídio”, Durkheim defende, entre outros postulados, que este acto pode resultar de “vínculos sociais fracos”.
Desviando os olhos da sua obra, e trazendo, suspenso pelas frágeis gavinhas da compreensão, este fragmento da sua teoria, é-nos difícil imaginar e desenhar contextos que sirvam a todas as realidades concretas que conhecemos. Mas tudo faz sentido se atendermos à complexidade de tudo o que é tocado pelo comportamento humano. E parece, de facto, haver um denominador comum no estado de espírito de quem voluntariamente quebra os laços com a existência: o sentimento de não pertencer à dimensão física em que todos nos movemos. A sensação de descontextualização. A impressão da impossibilidade de sobrevivência no plano social. No plano das relações sociais que intercepta, inevitavelmente, o plano dos afectos.
E em todos os casos, se atentarmos bem, percebemos que o acto último foi precedido de várias estratégias de luta que adiaram a desistência. Muitos beberam. Outros enveredaram por dependências piores. Incluindo a emocional. Houve os que se isolaram como se o afastamento do mundo diminuísse o seu peso. Outros abdicaram da sua lucidez extrema e enlouqueceram. Mas em todas estas situações o preço a pagar pela sobrevivência é a degradação. E mais tarde ou mais cedo, o ponto de não retorno acontece. E a morte assume-se mesmo como a única saída para uma vida sem sentido.

[texto publicado na edição de Maio de 2011 do jornal Cipreste]

2 comentários:

Pedrasnuas disse...

Gina, desculpa, não consigo ler porque o fundo é preto e a letra branca...fere-me a vista...vou tentar dar um saltinho no face ...talvez tenhas o mesmo por lá...certo? Beijokas

Unknown disse...

"Esta sede de te encontrar em mim..."

de encontrar o sentido, a razão de todas as coisas... aos laços, baraços e sacos da existência humana faz deste texto um texto que fala de todos e de cada um de nós! Sobreviventes ou mais que isso, ciclicamente todos nos percepcionamos ilhas, ilhazinhas perdidas, partidas cujo "denominador comum" se acha tão semelhante à Zulmira... melhor a todo o resto de texto que envolve, como um folhado amargo e doce esta Zulmira!
Obrigada Gina!