sábado, 17 de setembro de 2011

Zulmira morreu 2: Da desorientação


A filha mais velha da Zulmira tem 17 anos e vai para o 12º ano. Arrasta ainda nos olhos, lentos e mortiços, aquela angústia de não saber muito bem para que se serve.
[Se é que se serve para alguma coisa.]
A mãe morreu-lhe na pior altura da vida, portanto. Porque quando nos perdemos, é sempre a mão da nossa mãe que procuramos. É essa mão que, na infância, nos leva de volta ao caminho certo quando nos desviamos. Se vamos no extremo do passeio a mãe pega-nos pela mão e orienta-nos para o lado de dentro, onde estamos protegidos de eventuais atropelamentos. Se entramos no corredor errado do supermercado e percebemos, em pânico, que estamos sozinhos, a voz da nossa mãe há-de atravessar as prateleiras dos enlatados ou dos cereais para nos salvar, anunciando a chegada das suas mãos para muito breve. Se decidimos construir um avião de papel e quase perdemos a paciência porque não atinamos com as dobras necessárias, são os gestos da nossa mãe que descobrem a sequência certa, repondo a paz de se saber que se está a ir bem.
Mas agora a filha mais velha da Zulmira não tem as mãos nem os gestos da mãe. Tem o pai, é verdade. E em muitos casos os pais são bons substitutos das mães. Mas não neste caso. O pai dos filhos da Zulmira seria mais capaz de empurrá-los para a estrada do que de ajudá-los a construir um avião de papel. E jamais salvaria a sua filha mais velha da solidão de corredor algum. E o corredor da Zulmira não tem sinalização. Porque a bem da verdade, a mãe tinha as mãos, mas não teve tempo de lhe construir os sinais antes de enlouquecer. Nem sentidos proibidos, nem sentidos obrigatórios, nem sinais de perigo. Nada. A coisa mais parecida com um sinal que a filha mais velha da Zulmira tem é uma seta desenhada no seu corredor pelo psicólogo que lhe destacaram na escola. Mas é uma seta dúbia e a rapariga não confia nela. Porque em vez de apontar um caminho certo, a seta faz-lhe pergunta e dobra-se ao sabor das respostas. Ora, que seta é esta que não se decide?
A filha mais velha da Zulmira está verdadeiramente desorientada. Não sabe mesmo para que serve. Nem para onde deve ir para que acabe por servir para alguma coisa.
A única coisa que a filha mais velha da Zulmira sabe é que quando a mãe existia ela servia para dar abraços.

[texto publicado na edição de Agosto de 2011 do jornal Cipreste]

6 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Uma história muito triste. Vai ter mais capítulos?
Mas gostei da tua narrativa. É muito consistente e apelativa.
Beijos.

Virgínia do Carmo disse...

Nilson, não comecei a escrever esta "história" com o intuito consciente de lhe dar uma continuidade narrativa. Mas a verdade é que o enredo que usei como base para escrever esta espécie de crónicas me ajuda a dar consistência à mensagem que tento passar. E sim, o objectivo é escrever outras no seguimento destas.
Obrigada pela tua presença e pela tua leitura.
Beijinhos

António Gallobar disse...

Olá

Acho... sem ter a certeza, que já nos cruzamos na blogosfera, pelo menos. Gostei do texto, escorreito e com uma grande mensagem. Muitos parabens adorei.

António Gallobar

Rosário disse...

Muito bem, amiga... Estou feliz por te poder ler para além da poesia. Tens tanto para dizer... e sabes fazê-lo. Continua.


Mil beijos


Rosário

Cristina Torrão disse...

Adorei estes dois textos sobre a morte da Zulmira.

"é sempre a mão da nossa mãe que procuramos" - quando eu era pequenina e a minha mãe me levava pela mão, eu tinha sempre a sensação de que ela não me agarrava como devia ser. Sentia o aperto insuficiente, como se bastasse um sopro de vento para me levar. Muitas vezes, punha a minha mão sobre a dela, fazendo um gesto que lhe pedia que me agarrasse melhor, mais firme. Ela perguntava-me porque é que eu fazia isso, mas eu, na altura, não lhe sabia responder.

Em muitas ocasiões da minha vida, lembro-me dessa maneira frouxa com que a minha mãe me segurava...

Unknown disse...

Mais uma vez... " Esta sede de te encontrar em mim..." faz com que esqueçamos por linhas e linhas a história da filha mais velha da Zulmira para sermos apanhados na corrente que nos remete para a essência das coisas, para a razão de ser... deixa de ser a história da filha mais velha da Zulmira e é a nossa história... e assim catapultados lá vamos nós ao sabor da nossa existência interna reflectindo, da meditando ou simplesmente do retornando à memória maternais das mãos, corredores, aviões...
Obrigada Gina.