quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jorge de Sena: a inteligência e a frontalidade de um génio



"O nosso mal, entre nós, não é sabermos pouco; é estarmos todos convencidos de que sabemos  muito. Não é sermos pouco inteligentes; é andarmos convencidos de que o somos muito."

"O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos."

Jorge de Sena





Jorge de Sena, escritor, crítico, poeta, ensaísta e professor universitário, nasceu em Lisboa, em 1919. Ao longo da sua vida escreveu obcecadamente, não obstante ter sido, em vida, muto mais criticado (Eugénio Lisboa fala mesmo em "calúnia") do que reconhecido.
Por não se conformar com a marginalização a que quiseram votá-lo, Jorge de Sena foi, não raras vezes, acusado de arrogante. Mas hoje o que se lhe reconhece é uma grande frontalidade, atitude que exerceu ao longo da vida de forma coerente e sempre provido de uma inteligência insuperável. Como todos os génios, a sua grandeza ofuscou a pequenez de muitos dos que, à data, insistiram em manter pequeno o universo da cultura e da literatura. Jorge de Sena não hesitou em resistir a esta realidade atrofiante.
Traçando o seu perfil, Eugénio Lisboa define o escritor como "inteligente num terreno de plantas sensitivas, trabalhador numa corporação onde abundam os madraços com ambições, estudioso num contexto de preguiçosos intelectuais, poeta mas também crítico e erudito, professor mas convivente brilhante e caloroso, académico mas salutarmente malcriado, literato em tempo quase inteiro mas de formação científica e filosófica, o que incomoda sempre mais gente do que aquela que gosta de ser incomodada."
Jorge de Sena faleceu em 1978, nos Estados Unidos, onde residia desde 1965, partilhando a sua vasta aptidão intelectual como professor universitário, sendo que nos últimos oito anos como catedrático de Literatura Comparada na Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara.

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«Quem a tem...»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena in "Fidelidade" - Poesia II, Lisboa, 1978

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O receio da morte é a fonte da arte


Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte


Excerto do poema "A fonte da arte", de Ruy Belo
in "Despeço-me da Terra da Alegria"



Ruy Belo foi um poeta e ensaísta português, hoje considerado um dos maiores do século XX.
Nasceu em 1933, em S. João da Ribeira (Rio Maior). Licenciado em Direito e em Filologia Românica, viria a  doutorar-se em Direito Canónico.
Sobre a sua obra disse um dia José Tolentino Mendonça,  ter "uma originalidade e um fulgor incontornáveis. É um ponto de luz, um grande momento de transfiguração da língua".
De facto ler Ruy Belo é, também para mim, um momento de transfiguração, pela sabedoria que é a seiva da sua escrita, só por si de uma beleza ímpar.
Impressiona-me especialmente o seu último livro publicado em vida, em 1977, a que chamou "Despeço-me da Terra da Alegria". Um ano mais tarde viria a falecer, com apenas 45 anos, vitimado por um edema pulmonar.
No prefácio da quarta edição desta obra, 22 anos depois,  Eduardo Prado Coelho recorda que "raramente um poeta preparou tão bem a sua morte antecipada como Ruy Belo, com este livro breve, terrível, vertiginoso, aparentemente desesperado, no fim de contas sereno".