sábado, 10 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 4: O Natal sem a Zulmira


Este vai ser o primeiro Natal da família sem a Zulmira. Na verdade, talvez este seja, antes, o primeiro Natal de todos sem família.
Dizem que as mulheres têm uma enorme capacidade de se desdobrarem em mil e uma funções. E assim se tornam a malha que une todos os pontos. A consistência que dá sentido à dispersão. A sábia substância que torna coesos os dias. Zulmira era um exemplo dessa paradigmática vocação feminina. E muito mais. Como um dado atirado sobre a vida dos outros, Zulmira tinha o dom de cair sempre com a face certa para cima. Porque não obstante ter o seu tempo para mergulhar na dormência profunda do seu veneno incolor, e vasculhar nas entranhas da inconsciência até encontrar os contornos da sua paz, Zulmira emergia depois à superfície com um vigor que contagiava a atmosfera com aqueles cheiros alquímicos a bolo quente e a arroz doce. Vinha carregada de ternura. Uma sensação que se lhe granulava nos olhos e a fazia sentir-se segura na paisagem dos seus filhos entregando-se ao prazer de uma fatia de bolo com leite morno. Aquele era sempre o retorno a uma espécie de génese da alegria. Ao momento de uma certa criação. Aquele momento que durou os primeiros sete anos da sua vida.
O filho mais novo de Zulmira terá, por essa lógica, completado ontem o ciclo da sua criação. Fez sete anos. Zulmira teria desejado estar presente para lhe fazer um bolo. Para lhe lembrar que, não obstante o universo estar viciado na programação septenária de todas as coisas, ele era ainda, e apenas, uma criança. Colocar-lhe um copo de leite morno nas mãos e dizer-lhe
toma o leitinho todo, meu amor, para seres um homem grande.
E, quem sabe, talvez essas precisas palavras lhe vão fazer falta. Talvez, por causa da falta que lhe vão fazer, o pequeno Tomás não cresça tanto quanto devia.
A mãe do Tomás era a sua família. A sua família toda. E Tomás não perdeu apenas a sua mãe. Porque sem Zulmira, a sua filha mais velha deixou de saber para que serve e não se lembra que é a irmã mais velha de alguém. E o seu pai anda tão ocupado a pensar no que vai fazer com a raiva que já não pode dar a Zulmira, que não se lembra que tem filhos. E o outro irmão do Tomás queria muito oferecer-lhe, como prenda de natal, um céu que lhe fosse azul. Mas o pequeno José não conhece as cores.
Assim, este será o Natal de uma única surpresa: a perceção doída de cada um estar tão só.


[escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 3: Da infância de Zulmira


Zulmira crescera numa pequena aldeia sob o estigma da bastardia. Zulmira, a zorra, chamavam-lhe na aldeia. Num aproveitamento básico da aliteração ironicamente acidental. Não lho chamavam directamente. Como se, poupando-lhe os ouvidos das palavras, lhe suprimissem o respectivo eco no peito. Mas era assim que falavam dela.
A mãe era uma boa mulher. Calhara ter acreditado que os frémitos do corpo tinham sempre raízes na alma. Nos sentimentos puros e castos que nascem muito antes da pele. E assim se entregou à desonra, inocente e apaixonada.
O desencanto que lhe tomou os restantes dias da existência depois da dolorosa lição com que a vida lhe tirou a inocência foi tal, que a mãe de Zulmira nunca mais quis saber de homem nenhum. E muitos foram os que, por via da sua condição de desonrada, tentaram a sua sorte. Mas nenhum deles chegou a experimentar o deleite das suas formas de mulher.
Zulmira admirava a mãe. Levantava-se cedo para ir à jeira. Trabalhava de sol a sol. E trabalhava quando não havia sol e o gelo lhe tomava os pulsos, torturando-lhe os gestos. Trabalhava como poucas mulheres, para criar a pequena Zulmira.
Zulmira sofria com o afastamento dos avós, que renegaram a filha desonrada e a neta ilegítima. Mas nada dizia à mãe para não aumentar o fluxo de lágrimas que todas as noites ela entregava ao cansaço na quietude do travesseiro. Zulmira bem ouvia o seu choro amarrotado sob a mordaça do silêncio. O ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
Acordava Zulmira com uma carícia na testa. Todos os dias. E todos os dias lhe dizia Deus te abençoe, minha filha.
Quando Zulmira entrou para a escola, a mãe temeu pela segurança emocional da filha. As outras crianças haviam de constantemente lembrar a pequena, com requintes de malvadez, da sua condição de zorra. Todos os dias. Apoquentada, resolveu antecipar-se e foi à escola, falar com a professora. Contou-lhe a história da sua vida. Comovida, pediu-lhe que não castigasse a filha pelos erros da mãe. Que a tratasse como às outras crianças. Que não deixasse as outras crianças humilharem a sua menina.
A professora disse-lhe que sim. Mas no dia seguinte decidiu, sem querer, que Zulmira seria a sua pior aluna. Porque nenhuma menina sem pai poderia ter aproveitamento escolar. E colocou-a na última fila da sala. Sem querer. Seguindo, inconsciente, os trilhos fáceis deixados pelos estigmas sociais da época.
Zulmira percebeu. Mas não quis apoquentar mais a mãe. Nem mesmo quando as outras meninas começaram a gozá-la no recreio, por ter um pai que não era pai dela. A mãe nunca lhe explicara claramente o que acontecera para que nunca tivesse conhecido o seu pai. Mas Zulmira sabia que enquanto tivesse aquela mãe nenhum pai lhe faria falta. Era tácita mas sólida a cumplicidade que as unia. Numa teia apertada de emoções pela qual se excluíam do mundo.
Por isso, quando a mãe lhe faltou, aos 21 anos de idade, Zulmira perdeu-se nas malhas dos afectos fáceis. Tropeçou tragicamente no pai dos seus três filhos e na queda perdeu o andar. E assim se tornaria dependente. Para sempre.