domingo, 4 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 3: Da infância de Zulmira


Zulmira crescera numa pequena aldeia sob o estigma da bastardia. Zulmira, a zorra, chamavam-lhe na aldeia. Num aproveitamento básico da aliteração ironicamente acidental. Não lho chamavam directamente. Como se, poupando-lhe os ouvidos das palavras, lhe suprimissem o respectivo eco no peito. Mas era assim que falavam dela.
A mãe era uma boa mulher. Calhara ter acreditado que os frémitos do corpo tinham sempre raízes na alma. Nos sentimentos puros e castos que nascem muito antes da pele. E assim se entregou à desonra, inocente e apaixonada.
O desencanto que lhe tomou os restantes dias da existência depois da dolorosa lição com que a vida lhe tirou a inocência foi tal, que a mãe de Zulmira nunca mais quis saber de homem nenhum. E muitos foram os que, por via da sua condição de desonrada, tentaram a sua sorte. Mas nenhum deles chegou a experimentar o deleite das suas formas de mulher.
Zulmira admirava a mãe. Levantava-se cedo para ir à jeira. Trabalhava de sol a sol. E trabalhava quando não havia sol e o gelo lhe tomava os pulsos, torturando-lhe os gestos. Trabalhava como poucas mulheres, para criar a pequena Zulmira.
Zulmira sofria com o afastamento dos avós, que renegaram a filha desonrada e a neta ilegítima. Mas nada dizia à mãe para não aumentar o fluxo de lágrimas que todas as noites ela entregava ao cansaço na quietude do travesseiro. Zulmira bem ouvia o seu choro amarrotado sob a mordaça do silêncio. O ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
Acordava Zulmira com uma carícia na testa. Todos os dias. E todos os dias lhe dizia Deus te abençoe, minha filha.
Quando Zulmira entrou para a escola, a mãe temeu pela segurança emocional da filha. As outras crianças haviam de constantemente lembrar a pequena, com requintes de malvadez, da sua condição de zorra. Todos os dias. Apoquentada, resolveu antecipar-se e foi à escola, falar com a professora. Contou-lhe a história da sua vida. Comovida, pediu-lhe que não castigasse a filha pelos erros da mãe. Que a tratasse como às outras crianças. Que não deixasse as outras crianças humilharem a sua menina.
A professora disse-lhe que sim. Mas no dia seguinte decidiu, sem querer, que Zulmira seria a sua pior aluna. Porque nenhuma menina sem pai poderia ter aproveitamento escolar. E colocou-a na última fila da sala. Sem querer. Seguindo, inconsciente, os trilhos fáceis deixados pelos estigmas sociais da época.
Zulmira percebeu. Mas não quis apoquentar mais a mãe. Nem mesmo quando as outras meninas começaram a gozá-la no recreio, por ter um pai que não era pai dela. A mãe nunca lhe explicara claramente o que acontecera para que nunca tivesse conhecido o seu pai. Mas Zulmira sabia que enquanto tivesse aquela mãe nenhum pai lhe faria falta. Era tácita mas sólida a cumplicidade que as unia. Numa teia apertada de emoções pela qual se excluíam do mundo.
Por isso, quando a mãe lhe faltou, aos 21 anos de idade, Zulmira perdeu-se nas malhas dos afectos fáceis. Tropeçou tragicamente no pai dos seus três filhos e na queda perdeu o andar. E assim se tornaria dependente. Para sempre.

5 comentários:

Rosário disse...

Gosto muito da forma sábia como constróis personagens tão gente... Toda a narrativa se enquadra e fiquei com vontade de continuar a ler. Terei de esperar :). Não é mau porque assim releio sempre (com prazer) desde o início.

Feliz por ser tua amiga.

beijinho

Rosarinho

Ana Oliveira disse...

Gostei tanto. Tão sensível e poético o contar de duas vidas que apenas parecem vulgares.

Obrigada

Beijinho

Olinda P. Gil © disse...

Análise muito bem feita, de circunstâncias sociais que modelam os destinos.

Evanir disse...

Construa um paraiso de alegria e paz.
Basta você querer o bem para todos.
Ser otimista. Ter fé em Deus e em si mesmo.
Compreender que Deus não tem preferências é uma forma de se sentir seguro.
Tenha um abençoado final de semana.
Beijos no coração.
Não se esqueça que..
Estou seguindo -te e te amando .
Evanir
Tem Presente de Natal na Lateral para você.
Fiz com muito carinho..

Cristina Torrão disse...

Finalmente voltei para continuar a ler a história da Zulmira!

No episódio anterior, dizia-se que quem se suicida tem laços sociais fracos. E eu acho que começou aqui a tragédia da Zulmira, pois, apesar de ter uma ligação forte à mãe, as duas estavam sozinhas, renegadas pela própria família (para já não falar dos outros: professores, colegas da escola, etc).