quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Zulmira morreu 9: da inocência e do pecado



Nos momentos mais tristes Zulmira sentava-se nos degraus. Gostava daquela sensação de desnivelamento da realidade. Sentia que a inconstância daquela superfície dava sentido à sua alma inquieta, cheia de dúvidas. Como se subir e descer com o pensamento fosse comparável à oscilação das respostas face ao ritmo pendular das perguntas. 
No dia em que Zulmira decidiu ir ter com o padre da terra teve a esperança de que este lhe daria uma planície de tranquilidade, um patamar de justiça em que repousar da subida íngreme ao cume dos seu esforço. A oportunidade de ficar sentada para sempre num degrau, a admirar, passiva, o nivelamento pacífico do seu coração.
O que Zulmira não sabia é que a Igreja é, também ela, cheia de degraus. Degraus sumidos, feitos para pés pequenos e passos normalizados. E Zulmira percebeu que afinal o que tinha eram pecados, não dúvidas. Descobriu que tinha tantos pecados que ficou assustada e teve medo de morrer naquela hora e ir para o inferno. Uma mulher cheia de maus pensamentos, com desejos de deixar o seu homem para ter outros homens, egoísta e intolerante, incapaz de perdoar. Ela, a Zulmira, a mulher simples que não imaginava outro afecto que os abraços dos seus filhos, que todas as noites rezava uma oração pelo marido, que cicatrizava as nódoas negras com lágrimas silenciosas. Que não conhecia a ira, que não queria vingança, mas apenas descansar da infelicidade. Sim, passou-lhe pela cabeça deixar o marido. Estava convencida de que seria melhor para todos. Mas agora o padre vinha dizer-lhe que isso era um pecado mortal. Que o casamento era sagrado. Indissolúvel. Que cabia às esposas serem pacientes com os maridos.
Quando naquele dia chegou da Igreja Zulmira trazia, então, a desilusão de uma corrente interrompida, de um mar partido ao meio. Sentada na escada, as esquinas de cada degrau pareciam agora mais vivas. Sentia que podia cortar-se e esvair-se de sangue se roçasse os pulsos nas suas arestas. Zulmira descobrira os seus pecados e não sabia o que fazer com eles. Sentia-se suja e incapaz de se lavar. Uma torrente de tristeza, veloz e enfurecida, levando a esperança para o abismo de uma tempestade de que nunca sairia incólume.
Zulmira temia Deus. E não sabia que era inocente. E assim se deixou condenar. Degrau a degrau.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Zulmira morreu 8: Da quantificação de um nome


Adriano. Chama-se Adriano. Zulmira chegou a sabê-lo porque no dia do seu casamento recebeu um envelope. Trazia um nome: Adriano Vilar. E dentro, um cheque. Zulmira nunca mais vai esquecer o cheiro que se esquivou do interior do envelope quando lhe rasgou um dos lados. Era um cheiro diferente de todos os cheiros que já experimentara. Zulmira nunca vira um cheque antes. Nunca lhe sentira o cheiro. Um cheiro a papel em decomposição a misturar-se com perguntas numa intriga digna das novelas que por vezes gostava de ver na televisão. Não era bem que acreditasse nos enredos retorcidos daquelas tramas ficcionadas com finais felizes, porque ela sabia como ninguém que às vezes os bons morrem no fim das estórias. Mas aquela brisa com travo a conto de encantar que lhe vinha do ecrã fazia-lhe bem, e por momentos esquecia que sua vida era tão real.
Um arrepio varreu-lhe a pele sob o vestido branco, um branco não tão branco assim, cheio de claridades moribundas, como todos os brancos. Alargou atrapalhadamente o rasgão do envelope, esventrando aquele outro branco - também ele não tão branco assim - e três palavras caíram-lhe aos pés.
Zulmira colou os olhos àquele pedaço de papel mal rasgado. Percebia de cicatrizes e viu-lhe mil marcas. Percebeu a falta de cuidado na forma como a nota fora acomodada dentro do invólucro. Percebeu as mãos rudes, os gestos brutos. Zulmira percebeu tanta coisa. Tanta coisa que não cabia num nome, nem na soma simples de números com um nome.
E o cheque tinha mesmo muitos números a compor um número grande. Zulmira nem sabia ler um número tão grande mas soube logo que aquele dinheiro daria para comprar tantas coisas. Mas não seria suficiente para lhe devolver a mãe. A mãe que gastara os pulsos no relento gelado da solidão, que esgotara os olhos sob o sol corrosivo de jeiras sucessivas.
Era um número mesmo muito grande. Mas Zulmira sabia mais, muito mais. Sabia que há coisas que não cabem num nome, nem na soma simples de números com um nome e três palavras.
Rasgou o cheque, o nome e as três palavras. Rasgou tudo enquanto misturava as suas lágrimas com a memória do choro amarrotado da mãe sob a mordaça do silêncio das noites. A memória do ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
O tempo passou e Zulmira nunca falaria desse nome aos filhos. Pensou que, depois de rasgado, esse nome não voltaria às suas vidas.
E por isso é tão difícil para a filha mais velha de Zulmira perceber este momento, em que um envelope com um cheque, um nome e três palavras lhe paira nas mãos e tudo o resto lhe chega aos lábios:
Do vosso avô. Adriano Vilar.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Zulmira morreu 7: Um céu que se foi



Há céus que nascem e morrem num mesmo dia. Que são irrepetíveis. Há céus que só acontecem uma vez. O ocaso a passar na tela do horizonte, devagar, e Zeferino só consegue pensar que há céus que não voltam a nascer, que só acontecem uma vez. Por isso quer reter na pupila os tons específicos daquele sol aceso sobre o pano engelhado daquele céu concreto. E reter os contornos precisos da dor que lhe levou um certo céu.
Zeferino sabe que a vida é um estado transitório. Uma condição temporária. Hoje sabe melhor do que ontem que assim é. Mas nunca tinha pensado que há céus que não se repetem. Sempre pensou que o mesmo céu estaria lá todos os dias.  Independentemente de tudo o que acontecesse. Mas agora sabe mais. Sabe na pele. Nos olhos e na ponta dos dedos. No corpo todo. Sabe que há céus que se levam e não voltam a existir.
Zulmira nascera sob um céu denso e negro. Um céu carregado de nuvens, ásperas e cinzentas, a roçarem a claridade de uma manhã, também ela única. Zeferino não estava lá. Nascia, também, mas sob um outro céu. Um céu límpido, transparente. A deixar perceber a textura de todo o universo.
Nasceram ambos no mesmo dia. Só que o céu não era o mesmo.
Passaram muitos céus entretanto.
Mas houve um dia em que Zulmira e Zeferino se encontraram. Aconteceu-lhes, então, um céu comum. Chovia. Era o tempo das trovoadas. O mês de todos os desabafos do céu. E o céu era o mesmo, Um céu comum. Um céu acidificado de tanto respirar a energia poluída da terra. Um céu psicadélico aos gritos.
Zulmira deitava gritos, também, dos olhos. Mas sem ruído. Relâmpagos silenciosos. O lado esquerdo do seu rosto misturava-se com todos os negros daquele dia. Zeferino foi o agente incumbido de interrogar Zulmira. Mas Zulmira não queria falar. Nem queria estar ali. Se não tivesse sido encontrada inconsciente em casa não estaria ali. Que a deixassem ir, pedia. Que tinha sido um acidente, repetia. Caíra, e pronto. Batera com rosto no chão e desmaiara. Zeferino nunca vira Zulmira antes. Mas percebeu que aquele céu que lhes acontecia era especial. Quis pegar-lhe na mão e levá-la para um chão seguro, onde o céu seria sempre azul. E sempre o mesmo. Sentiu-se atravessado de um raio de ternura. Um raio luminoso e eletrizante. Queria mesmo pegar-lhe na mão e levá-la para o chão da sua alma. Salvá-la. Mas Zeferino teve medo. Nunca vira Zulmira antes. Não sabia nada daquela mulher. Só a intuição lhe fundamentava o apelo. Naquele momento a intuição pareceu-lhe insuficiente. E deixou que Zulmira partisse sem apresentar queixa alguma contra o marido. Deixou que voltasse na direção das mãos que haviam enegrecido o seu rosto.  
Agora, três dias depois, diante de um ocaso que nunca haverá de esquecer, despede-se de um céu que se foi para sempre. Um céu que teve nas mãos. Um céu que podia ter aprisionado na cela do seu nobre coração. Um céu que deixou escapar por entre os dedos escorregadios da insegurança.
Zeferino foi o agente chamado à casa de Zulmira para tomar conta da ocorrência da sua morte. E agora despede-se de um céu. Que se foi para sempre.

[crónica publicada no Mensageiro de Bragança, ed. de 17.05.2012]


terça-feira, 20 de março de 2012

Zulmira morreu 6: Da alma que as coisas têm


O pai dos filhos de Zulmira é sapateiro por herança. Aprendeu com o seu pai, que aprendera com o avô, a consertar esses indispensáveis acessórios com que caminhamos pela vida. Como se só de chão se fizessem os passos. De chão e de pés. O marido de Zulmira percebia tudo o que havia para perceber de solas e de saltos. Dizia o povo que era um bom sapateiro.
Foi nessa sua condição de cuidador dos passos das gentes da aldeia que Zulmira o conheceu. Um homem alto e robusto. De mãos firmes e fortes. A zelar pelo bom caminhar dos outros.
Como a mãe sempre cuidara do seu. Levando ela própria os sapatos ao sapateiro quando tal se assumia como inadiável. Mas agora que a mãe se levara, de pés e passos, do seu caminho, Zulmira tinha de cuidar do seu próprio andar.
Rumou à oficina. Lá chegada, entregou-lhe os sapatos velhos.
Precisam de umas solas novas.
Joaquim baixou os olhos, desconfiado. A questionar a história daqueles sapatos de atacadores gastos. A imaginar idas e vindas presas nos mil nós que os gastaram. Mediu a proporção de medo na espera de Zulmira, na estranheza do cheiro aceso a graxa e cabedal. Discretamente. Pressentiu o seu jeito de presa fácil na evidência da solidão que trazia agarrada aos olhos. Reconheceu-a. Já a vira passar ao longe. Já ouvira falar dela. Zulmira, a zorra. Conhecera a mãe. Ouvira falar da sua morte. Observou de novo os sapatos. Dobrou um deles como se procurasse o limite da sua flexibilidade para determinar a sua idade. E depois veio-lhe a voz.
Este sapato tem a alma partida.
Zulmira recolheu-se por segundos ao espanto da descoberta de que os sapatos tinham alma.
E como se conserta a alma?
E cruzando sentidos, Joaquim confundiu vocábulos com significados, propositadamente.
Precisa de uma alma nova.
Zulmira acreditou naquele momento que o melhor seria dar uma alma nova ao seu sapato. Ainda que não acreditasse na substituição de algo tão essencial.
E Joaquim preparava-se para forçar a realidade de todas as coisas
[da alma que todas as coisas têm]
 rumo a um sentido muito seu. E reconstruiu o sapato de Zulmira, como se assim lhe reconstruísse a vida.
Mas Zulmira nunca chegaria a habituar-se à dureza da nova alma do seu sapato. Porque os pés de Zulmira já se haviam afeito ao jeito enviesado com que, rasos, beijavam o chão.
Zulmira acabou por perceber que não deveria ter trocado de alma. Que a primeira verdade das coisas é sempre maior. Mesmo partida, Zulmira dava tudo para ter de volta a curvatura viciada que lhe enformava os passos quando tudo lhe era tão verdadeiro. Mas por essa altura já o sapateiro Joaquim cobrara o seu preço pelo (des)conserto da alma de todas as coisas de Zulmira.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Aconteceu.... falar de poesia

[Aconteceu no passado dia 7]

O tempo de nos darmos é um tempo precioso.  Porque é tanto o que trazemos nos bolsos das coisas vividas. Intensamente.

Agradeço, por isso, ao Agrupamento de Escolas de Macedo de Cavaleiros o convite que me foi feito para falar de poesia com algumas das suas turmas de nono ano.
E como lembrança maior deste momento, deixo registado o interesse e a vastidão de perguntas colocadas, a sublinharem bem como são profundos, afinal, os nossos jovens.  Bem hajam todos.

Convite


clique para ampliar, p.f.

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Uma luz que nos nasce por dentro" - lançamento

"Nasceste quase pequeno. Quase cabível na palma da minha mão. Quase tão pequeno. Não fora seres enorme
[Tão enorme que nunca coubeste nos meus olhos abertos]
Terias nascido pequeníssimo.
E agora olho para ti
[de olhos fechados para que me sejas inteiro]
e sei que vais crescer. "

In "Uma luz que nos nasce por dentro"

Momentos da sessão de lançamento, no dia 25 de Fevereiro, em Lisboa.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Zulmira morreu 5: Os olhos de José

Talvez um dia o pequeno José venha a descobrir a temperatura precisa de cada cor e possa assim pressentir com a ponta dos dedos os contornos das coisas para além dos declives e saliências das formas. Zulmira nunca se cansava de dizer-lhe como eram belos os seus dedos. Transparentes a todas as verdades. Permeáveis à honestidade do seu rosto. Muito mais puros que os outros olhos. Os que todos temos. Zulmira encontrava em José a paz de chorar e sorrir com uma sinceridade que não se mostra aos olhos de ninguém. Mas que somos capazes de contar aos dedos do nosso pequeno filho. Com a voz despida de ciscos. Com os lábios abertos às lágrimas. Zulmira sabia que talvez os nove anos de José não fossem divisíveis em dias, mas em plúmbeas e arrastadas sequências temporais múltiplas desses dias. Dos dias dos outros. Uma medida a que ainda ninguém conseguiu dar nome. A compreensão de tudo era para si um esforço para além do que devia exigir-se a um menino de nove anos. Por isso Zulmira sabia que os nove anos de José talvez não fossem, afinal, nove anos, mas nove vezes o tempo em que se propagava o seu esforço. Isso descansava um pouco Zulmira, que olhava para o seu filho e imaginava um verdadeiro homenzinho. Capaz de ver o que os seus outros filhos nunca haveriam de ver. Mas os seus pés ainda não caminhavam sozinhos. E havia passos que à data da morte de Zulmira o pequeno José não sabia dar por si. Também o pequeno José procurava e precisava da mão da sua mãe. Para fazer melhor tudo o que já fazia. Para aprender o que não aprendera ainda. Para descobrir todos os obstáculos por vir. Para ir à rua e memorizar todos os caminhos possíveis.
Desde a morte de Zulmira José não voltou à escola por muito tempo. José esperava que um dia alguém se lembrasse que tinha dedos. E que com eles poderia guardar no pensamento o mundo e todas as coisas que existem. Como a sua mãe lhe ensinara. “Meu pequeno José, os teus dedos são um milagre de Deus!”, dizia-lhe.
E por isso José, que é cego, que não conhece as cores, mas que conhecia a temperatura precisa da mão da sua mãe, sabe que tem dedos. E na ponta dos seus dedos é tão maior e mais depurada a saudade do rosto de Zulmira.
E talvez um dia o pequeno José venha a descobrir como colorir o chão monocromático da ausência doída da sua mãe. Mas há uma cor irrepetível. Que se foi para sempre.


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