quinta-feira, 17 de maio de 2012

Zulmira morreu 7: Um céu que se foi



Há céus que nascem e morrem num mesmo dia. Que são irrepetíveis. Há céus que só acontecem uma vez. O ocaso a passar na tela do horizonte, devagar, e Zeferino só consegue pensar que há céus que não voltam a nascer, que só acontecem uma vez. Por isso quer reter na pupila os tons específicos daquele sol aceso sobre o pano engelhado daquele céu concreto. E reter os contornos precisos da dor que lhe levou um certo céu.
Zeferino sabe que a vida é um estado transitório. Uma condição temporária. Hoje sabe melhor do que ontem que assim é. Mas nunca tinha pensado que há céus que não se repetem. Sempre pensou que o mesmo céu estaria lá todos os dias.  Independentemente de tudo o que acontecesse. Mas agora sabe mais. Sabe na pele. Nos olhos e na ponta dos dedos. No corpo todo. Sabe que há céus que se levam e não voltam a existir.
Zulmira nascera sob um céu denso e negro. Um céu carregado de nuvens, ásperas e cinzentas, a roçarem a claridade de uma manhã, também ela única. Zeferino não estava lá. Nascia, também, mas sob um outro céu. Um céu límpido, transparente. A deixar perceber a textura de todo o universo.
Nasceram ambos no mesmo dia. Só que o céu não era o mesmo.
Passaram muitos céus entretanto.
Mas houve um dia em que Zulmira e Zeferino se encontraram. Aconteceu-lhes, então, um céu comum. Chovia. Era o tempo das trovoadas. O mês de todos os desabafos do céu. E o céu era o mesmo, Um céu comum. Um céu acidificado de tanto respirar a energia poluída da terra. Um céu psicadélico aos gritos.
Zulmira deitava gritos, também, dos olhos. Mas sem ruído. Relâmpagos silenciosos. O lado esquerdo do seu rosto misturava-se com todos os negros daquele dia. Zeferino foi o agente incumbido de interrogar Zulmira. Mas Zulmira não queria falar. Nem queria estar ali. Se não tivesse sido encontrada inconsciente em casa não estaria ali. Que a deixassem ir, pedia. Que tinha sido um acidente, repetia. Caíra, e pronto. Batera com rosto no chão e desmaiara. Zeferino nunca vira Zulmira antes. Mas percebeu que aquele céu que lhes acontecia era especial. Quis pegar-lhe na mão e levá-la para um chão seguro, onde o céu seria sempre azul. E sempre o mesmo. Sentiu-se atravessado de um raio de ternura. Um raio luminoso e eletrizante. Queria mesmo pegar-lhe na mão e levá-la para o chão da sua alma. Salvá-la. Mas Zeferino teve medo. Nunca vira Zulmira antes. Não sabia nada daquela mulher. Só a intuição lhe fundamentava o apelo. Naquele momento a intuição pareceu-lhe insuficiente. E deixou que Zulmira partisse sem apresentar queixa alguma contra o marido. Deixou que voltasse na direção das mãos que haviam enegrecido o seu rosto.  
Agora, três dias depois, diante de um ocaso que nunca haverá de esquecer, despede-se de um céu que se foi para sempre. Um céu que teve nas mãos. Um céu que podia ter aprisionado na cela do seu nobre coração. Um céu que deixou escapar por entre os dedos escorregadios da insegurança.
Zeferino foi o agente chamado à casa de Zulmira para tomar conta da ocorrência da sua morte. E agora despede-se de um céu. Que se foi para sempre.

[crónica publicada no Mensageiro de Bragança, ed. de 17.05.2012]


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