quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Zulmira morreu 8: Da quantificação de um nome


Adriano. Chama-se Adriano. Zulmira chegou a sabê-lo porque no dia do seu casamento recebeu um envelope. Trazia um nome: Adriano Vilar. E dentro, um cheque. Zulmira nunca mais vai esquecer o cheiro que se esquivou do interior do envelope quando lhe rasgou um dos lados. Era um cheiro diferente de todos os cheiros que já experimentara. Zulmira nunca vira um cheque antes. Nunca lhe sentira o cheiro. Um cheiro a papel em decomposição a misturar-se com perguntas numa intriga digna das novelas que por vezes gostava de ver na televisão. Não era bem que acreditasse nos enredos retorcidos daquelas tramas ficcionadas com finais felizes, porque ela sabia como ninguém que às vezes os bons morrem no fim das estórias. Mas aquela brisa com travo a conto de encantar que lhe vinha do ecrã fazia-lhe bem, e por momentos esquecia que sua vida era tão real.
Um arrepio varreu-lhe a pele sob o vestido branco, um branco não tão branco assim, cheio de claridades moribundas, como todos os brancos. Alargou atrapalhadamente o rasgão do envelope, esventrando aquele outro branco - também ele não tão branco assim - e três palavras caíram-lhe aos pés.
Zulmira colou os olhos àquele pedaço de papel mal rasgado. Percebia de cicatrizes e viu-lhe mil marcas. Percebeu a falta de cuidado na forma como a nota fora acomodada dentro do invólucro. Percebeu as mãos rudes, os gestos brutos. Zulmira percebeu tanta coisa. Tanta coisa que não cabia num nome, nem na soma simples de números com um nome.
E o cheque tinha mesmo muitos números a compor um número grande. Zulmira nem sabia ler um número tão grande mas soube logo que aquele dinheiro daria para comprar tantas coisas. Mas não seria suficiente para lhe devolver a mãe. A mãe que gastara os pulsos no relento gelado da solidão, que esgotara os olhos sob o sol corrosivo de jeiras sucessivas.
Era um número mesmo muito grande. Mas Zulmira sabia mais, muito mais. Sabia que há coisas que não cabem num nome, nem na soma simples de números com um nome e três palavras.
Rasgou o cheque, o nome e as três palavras. Rasgou tudo enquanto misturava as suas lágrimas com a memória do choro amarrotado da mãe sob a mordaça do silêncio das noites. A memória do ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
O tempo passou e Zulmira nunca falaria desse nome aos filhos. Pensou que, depois de rasgado, esse nome não voltaria às suas vidas.
E por isso é tão difícil para a filha mais velha de Zulmira perceber este momento, em que um envelope com um cheque, um nome e três palavras lhe paira nas mãos e tudo o resto lhe chega aos lábios:
Do vosso avô. Adriano Vilar.


2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

sem palavras!

perfeito!

beij

Unknown disse...

Quase percebo o egoísmo desta mulher partida na alma, dependente, vazia e profundamente flagelada... Boa! Estou a adorar!