Nos momentos mais tristes Zulmira sentava-se nos degraus. Gostava
daquela sensação de desnivelamento da realidade. Sentia que a inconstância
daquela superfície dava sentido à sua alma inquieta, cheia de dúvidas. Como se
subir e descer com o pensamento fosse comparável à oscilação das respostas face
ao ritmo pendular das perguntas.
No dia em que Zulmira decidiu ir ter com o padre da terra teve
a esperança de que este lhe daria uma planície de tranquilidade, um patamar de
justiça em que repousar da subida íngreme ao cume dos seu esforço. A
oportunidade de ficar sentada para sempre num degrau, a admirar, passiva, o
nivelamento pacífico do seu coração.
O que Zulmira não sabia é que a Igreja é, também ela, cheia
de degraus. Degraus sumidos, feitos para pés pequenos e passos normalizados. E
Zulmira percebeu que afinal o que tinha eram pecados, não dúvidas. Descobriu
que tinha tantos pecados que ficou assustada e teve medo de morrer naquela hora
e ir para o inferno. Uma mulher cheia de maus pensamentos, com desejos de
deixar o seu homem para ter outros homens, egoísta e intolerante, incapaz de
perdoar. Ela, a Zulmira, a mulher simples que não imaginava outro afecto que os
abraços dos seus filhos, que todas as noites rezava uma oração pelo marido, que
cicatrizava as nódoas negras com lágrimas silenciosas. Que não conhecia a ira,
que não queria vingança, mas apenas descansar da infelicidade. Sim, passou-lhe
pela cabeça deixar o marido. Estava convencida de que seria melhor para todos.
Mas agora o padre vinha dizer-lhe que isso era um pecado mortal. Que o
casamento era sagrado. Indissolúvel. Que cabia às esposas serem pacientes com
os maridos.
Quando naquele dia chegou da Igreja Zulmira trazia, então,
a desilusão de uma corrente interrompida, de um mar partido ao meio. Sentada na
escada, as esquinas de cada degrau pareciam agora mais vivas. Sentia que podia
cortar-se e esvair-se de sangue se roçasse os pulsos nas suas arestas. Zulmira
descobrira os seus pecados e não sabia o que fazer com eles. Sentia-se suja e
incapaz de se lavar. Uma torrente de tristeza, veloz e enfurecida, levando a
esperança para o abismo de uma tempestade de que nunca sairia incólume.
Zulmira temia Deus. E não sabia que era inocente. E assim se
deixou condenar. Degrau a degrau.

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