domingo, 7 de abril de 2013

Desacerto de seivas



Um desacerto de seivas a correr para fora de mim, e eu, que sangro ainda todas as possibilidades, a escrever, na cadência dos inversos, sobre os filhos que me sobram na memória, esses que não hei-de ter contigo.
A pesar sobre o ruído mecânico das teclas, os truques mecânicos da vida. A consciência do pré-determinado: Um dia cessarei de gerar, no ritmo incerto de um mês mal medido, esta liquidez viva que me dói sem me doer e me contrai as entranhas.
E então as contracções serão no peito, e eu hei-de parir, com a dor maior das coisas que nos ficam cá dentro, um grito engolido à força, empurrado pela certeza de tudo o que simplesmente não pode ser de outra forma. Como os filhos que não teremos chegado a ter. Porque há tempo, e ciclos, e idades. Porque há sangue que se esgota. Que deixa de doer para passar a faltar. [O teu. O meu.] Metamorfose de uma ferida que não cura. Que não passa apenas porque há tempo, ou ciclos, ou idades.
Nos intervalos dos vocábulos, pausas de estranheza. As poeiras das não-palavras. Os nomes que não hei-de aprender. Porque, curioso, o tempo existe e não o temos.  Porque existe mas não nos tem. Fluxo incolor. Alheio a outras cadências que não a sua. Um ritmo exacto. Não como este, que corre descompassadamente para fora de mim, enquanto escrevo, desencontrada de sentidos com sentido, sobre os dias em que podia ter-te sido um corpo-semente, um corpo-raiz. Sobre os dias meus em que tu não estiveste. Em que tu não estavas ainda. E sobre aqueles em que já não estavas.

Um desacerto de seivas que corre para fora de mim                
                                                                                             

                                            e não me deixa.


[texto publicado originalmente aqui ]


terça-feira, 2 de abril de 2013

Zulmira morreu 12: Folhas Caídas



Quem disse que as folhas se soltam das árvores? Elas não se soltam, desprendem-se dos ramos com a violência das coisas quando morrem, e ao bater no chão o ruído que fazem é estridente. É atroz. Na sua travessia pelo ar deserto do tempo em decomposição desintegram-se da vontade, fecham os olhos, e perdem noção do rumo que lhes foi entregue pelo vento. Por vezes largam partículas lacrimais, ínfimas partes químicas de um sentir imperceptível. Batimento cardíaco em degradação. Involuntário fragmento do sopro que duraram.
E não é leve a sua matéria. Pouco aptos quando se trata de ver por dentro, os nossos olhos não vêem a procelosa vertigem do seu corpo em convulsão precipitando-se na floresta de lâminas que compõe a aerosfera que nos respira, arrastando todos os pesos com que a existência se vai inviabilizando.
Zulmira sentiu-se folha em queda durante toda a sua vida.
No seu último Outono teve a oportunidade de aprender mais sobre folhas secas e caídas. Não sobre os factos processuais por detrás do seu destino outoniço, como a diminuição de produção de clorofila que altera as suas tonalidades, ou a produção de ácido abscísico que acaba, por provocar a sua queda por via do enfraquecimento do pecíolo. Nada disso. Disso, Zulmira nada sabia.
Mas aprendera sobre a sua textura. Sobre as suas formas e sobre as suas deformações. Sobre as inúmeras combinações gráficas possíveis com os seus veios desidratados. Para isso bastou aquele seu encanto pelas coisas simples, o mesmo com que os seus pés amavam o toque nu do chão. E ver a sua filha a preparar uma composição plástica exclusivamente à base de folhas. Folhas secas, nuas e sós. Solidões sobrepostas sem cumplicidade. Mortes irreversíveis a suplicarem um travo de atenção, um rasgo de vida sobre si. Quando a filha terminou o seu quadro, Zulmira permaneceu uma hora a contemplar aquela obra nascida de tantas mortes. Observou folha a folha, imaginou o desenho da sua queda, mediu com o pensamento os seus perímetros e calculou as suas idades. Depois levou o dedo indicador a uma delas e lavou a voz com um suspiro. E ténue, ouviu-se dizer: esta sou eu


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 11: A felicidade anda descalça




Houve um tempo na vida de Zulmira, antes do cansaço último, daquele sopro de morte, [apagão definitivo das claridades], em que a mulher dentro de si soube conciliar a paz com o silêncio da alegria. Essa capacidade vinha-lhe, talvez, dos filhos. Dos seus olhos a pedirem essa sua paz. Nesse tempo Zulmira aprendera a viver por dentro das coisas verdadeiramente importantes: leite morno, arroz doce e fatias de bolo de laranja, o cheiro a refogado de ternura e dedicação. E deixara para lá da porta da sua casa tudo o que não lhe fazia falta: roupa apertada, julgamentos alheios, e sapatos.
Esta última opção provocava estranheza nas almas desocupadas dos outros, os que não importavam, os que gostavam de atirar à cara de Zulmira a sua sorte por ter um sapateiro em casa. Nessas ocasiões uma frase emergia das suas entranhas mais profundas para lhe subir através da pele e se lhe alojar nos olhos, que corriam a fixar-se num ponto imperceptível do tempo, naquele segundo fora de todos os relógios, como se em busca de um infinito inacessível: A felicidade anda descalça. Zulmira não sabia colocar esta ideia de outra forma. Era como um poema de um verso só a bailar-lhe no pensamento: A felicidade anda descalça.
Por vezes Zulmira floreava o seu poema, e acrescentava à felicidade a ausência de rímel nos olhos. Ou de tinta no cabelo. Mas o verso continuava ainda assim único. Porque só ele fazia sentido quando lhe falavam da sua sorte. Como se estar descalça já implicasse estar desprovida de todos os outros artifícios que a humanidade foi inventando para complicar a vida.
Se a felicidade usasse sapatos, não haveria forma de sentir as cócegas das flores sob as plantas dos pés. Nem a textura das suas pétalas, nem o viço da  sua seiva. E que dizer da neve branca, do arrepio matinal da relva húmida, ou da areia quente das praias deste mundo?
E foi por isso que Zulmira deixou de usar sapatos. Só os calçava quando a saída à rua impunha que o fizesse. Em casa Zulmira recusava tudo o que pudesse incomodar o contacto dos seus pés com o chão. O chão que era a sua verdade, o seu jardim de doces flores e fresca relva. Da fria neve e das areias quentes. O chão onde os muros começavam sem que nunca se tocassem.
Zulmira já sabia o que era ter a alma dos sapatos partida, já sabia o que era usar sapatos apertados e desajustados, e se por algum tempo podia descansar dos apertos e dar passos mais livres, aproveitava.
Em pouco tempo Zulmira contagiara os filhos com aquela sensação de contacto com a simplicidade das coisas através da libertação dos pés. E a determinada altura, andavam todos descalços lá em casa. Todos, menos o pai dos filhos de Zulmira, Joaquim, o sapateiro. 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 10: O sonho de Zulmira




Depois da morte de todos os brancos do seu vestido de noiva, Zulmira arrumara as sombras remanescentes dentro de um baú de madeira herdado da sua mãe. Sabia que a madeira era porosa. Sabia que o baú havia de transpirar as sombras para o seu dia-a-dia. Não o sabia por estas palavras, mas por outras, mais simples. Mas queria preservar os olhos das poeiras de fumo depois da combustão das claridades de que ainda conseguia lembrar-se.
Mas à noite os olhos fechavam-se e iam para onde Zulmira não tinha mão neles. E então viam tudo. Não viam com a clareza das coisas reais. Na verdade viam coisas que não entendiam. Metáforas que escapavam à sua compreensão. A mais habitual, [o sonho mais recorrente], era aquela em que corria nua, com os seus sapatos velhos, atrás de uma charrete. Quando a distância já era muita, a charrete parava, como se fosse esperar por ela. Mas assim que a distância encurtava até um determinado ponto arrancava de novo e Zulmira, desesperada, corria, e corria, até que por fim era derrubada pela força gravítica do seu cansaço e pela alma partida dos seus sapatos. Era então que a violência se assumia como dona do rumo de todos os desfechos, e numa súbita nuvem de vento nascia imparável a charrete que se precipitava na sua direcção. Tudo acontecia com tal rapidez que seria impossível a Zulmira levantar-se. Mas uma mão gigante surgia então do céu e varria com a mesma violência a carruagem do seu trajecto. E Zulmira ficava a salvo. Durante os breves segundos em que aquela mão salvífica rasgava os seus olhos, Zulmira conseguia sempre ver, com uma nitidez inusitada, quase sobrenatural, um anel de latão num dos dedos. Um anel que conhecia bem. E ainda que não percebesse nada de sonhos nem de metáforas, Zulmira percebia então tudo o que havia para perceber: acabara de ser salva, de novo, pela sua mãe.