sábado, 23 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 11: A felicidade anda descalça




Houve um tempo na vida de Zulmira, antes do cansaço último, daquele sopro de morte, [apagão definitivo das claridades], em que a mulher dentro de si soube conciliar a paz com o silêncio da alegria. Essa capacidade vinha-lhe, talvez, dos filhos. Dos seus olhos a pedirem essa sua paz. Nesse tempo Zulmira aprendera a viver por dentro das coisas verdadeiramente importantes: leite morno, arroz doce e fatias de bolo de laranja, o cheiro a refogado de ternura e dedicação. E deixara para lá da porta da sua casa tudo o que não lhe fazia falta: roupa apertada, julgamentos alheios, e sapatos.
Esta última opção provocava estranheza nas almas desocupadas dos outros, os que não importavam, os que gostavam de atirar à cara de Zulmira a sua sorte por ter um sapateiro em casa. Nessas ocasiões uma frase emergia das suas entranhas mais profundas para lhe subir através da pele e se lhe alojar nos olhos, que corriam a fixar-se num ponto imperceptível do tempo, naquele segundo fora de todos os relógios, como se em busca de um infinito inacessível: A felicidade anda descalça. Zulmira não sabia colocar esta ideia de outra forma. Era como um poema de um verso só a bailar-lhe no pensamento: A felicidade anda descalça.
Por vezes Zulmira floreava o seu poema, e acrescentava à felicidade a ausência de rímel nos olhos. Ou de tinta no cabelo. Mas o verso continuava ainda assim único. Porque só ele fazia sentido quando lhe falavam da sua sorte. Como se estar descalça já implicasse estar desprovida de todos os outros artifícios que a humanidade foi inventando para complicar a vida.
Se a felicidade usasse sapatos, não haveria forma de sentir as cócegas das flores sob as plantas dos pés. Nem a textura das suas pétalas, nem o viço da  sua seiva. E que dizer da neve branca, do arrepio matinal da relva húmida, ou da areia quente das praias deste mundo?
E foi por isso que Zulmira deixou de usar sapatos. Só os calçava quando a saída à rua impunha que o fizesse. Em casa Zulmira recusava tudo o que pudesse incomodar o contacto dos seus pés com o chão. O chão que era a sua verdade, o seu jardim de doces flores e fresca relva. Da fria neve e das areias quentes. O chão onde os muros começavam sem que nunca se tocassem.
Zulmira já sabia o que era ter a alma dos sapatos partida, já sabia o que era usar sapatos apertados e desajustados, e se por algum tempo podia descansar dos apertos e dar passos mais livres, aproveitava.
Em pouco tempo Zulmira contagiara os filhos com aquela sensação de contacto com a simplicidade das coisas através da libertação dos pés. E a determinada altura, andavam todos descalços lá em casa. Todos, menos o pai dos filhos de Zulmira, Joaquim, o sapateiro. 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 10: O sonho de Zulmira




Depois da morte de todos os brancos do seu vestido de noiva, Zulmira arrumara as sombras remanescentes dentro de um baú de madeira herdado da sua mãe. Sabia que a madeira era porosa. Sabia que o baú havia de transpirar as sombras para o seu dia-a-dia. Não o sabia por estas palavras, mas por outras, mais simples. Mas queria preservar os olhos das poeiras de fumo depois da combustão das claridades de que ainda conseguia lembrar-se.
Mas à noite os olhos fechavam-se e iam para onde Zulmira não tinha mão neles. E então viam tudo. Não viam com a clareza das coisas reais. Na verdade viam coisas que não entendiam. Metáforas que escapavam à sua compreensão. A mais habitual, [o sonho mais recorrente], era aquela em que corria nua, com os seus sapatos velhos, atrás de uma charrete. Quando a distância já era muita, a charrete parava, como se fosse esperar por ela. Mas assim que a distância encurtava até um determinado ponto arrancava de novo e Zulmira, desesperada, corria, e corria, até que por fim era derrubada pela força gravítica do seu cansaço e pela alma partida dos seus sapatos. Era então que a violência se assumia como dona do rumo de todos os desfechos, e numa súbita nuvem de vento nascia imparável a charrete que se precipitava na sua direcção. Tudo acontecia com tal rapidez que seria impossível a Zulmira levantar-se. Mas uma mão gigante surgia então do céu e varria com a mesma violência a carruagem do seu trajecto. E Zulmira ficava a salvo. Durante os breves segundos em que aquela mão salvífica rasgava os seus olhos, Zulmira conseguia sempre ver, com uma nitidez inusitada, quase sobrenatural, um anel de latão num dos dedos. Um anel que conhecia bem. E ainda que não percebesse nada de sonhos nem de metáforas, Zulmira percebia então tudo o que havia para perceber: acabara de ser salva, de novo, pela sua mãe.