domingo, 7 de abril de 2013

Desacerto de seivas



Um desacerto de seivas a correr para fora de mim, e eu, que sangro ainda todas as possibilidades, a escrever, na cadência dos inversos, sobre os filhos que me sobram na memória, esses que não hei-de ter contigo.
A pesar sobre o ruído mecânico das teclas, os truques mecânicos da vida. A consciência do pré-determinado: Um dia cessarei de gerar, no ritmo incerto de um mês mal medido, esta liquidez viva que me dói sem me doer e me contrai as entranhas.
E então as contracções serão no peito, e eu hei-de parir, com a dor maior das coisas que nos ficam cá dentro, um grito engolido à força, empurrado pela certeza de tudo o que simplesmente não pode ser de outra forma. Como os filhos que não teremos chegado a ter. Porque há tempo, e ciclos, e idades. Porque há sangue que se esgota. Que deixa de doer para passar a faltar. [O teu. O meu.] Metamorfose de uma ferida que não cura. Que não passa apenas porque há tempo, ou ciclos, ou idades.
Nos intervalos dos vocábulos, pausas de estranheza. As poeiras das não-palavras. Os nomes que não hei-de aprender. Porque, curioso, o tempo existe e não o temos.  Porque existe mas não nos tem. Fluxo incolor. Alheio a outras cadências que não a sua. Um ritmo exacto. Não como este, que corre descompassadamente para fora de mim, enquanto escrevo, desencontrada de sentidos com sentido, sobre os dias em que podia ter-te sido um corpo-semente, um corpo-raiz. Sobre os dias meus em que tu não estiveste. Em que tu não estavas ainda. E sobre aqueles em que já não estavas.

Um desacerto de seivas que corre para fora de mim                
                                                                                             

                                            e não me deixa.


[texto publicado originalmente aqui ]


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