domingo, 7 de abril de 2013

Desacerto de seivas



Um desacerto de seivas a correr para fora de mim, e eu, que sangro ainda todas as possibilidades, a escrever, na cadência dos inversos, sobre os filhos que me sobram na memória, esses que não hei-de ter contigo.
A pesar sobre o ruído mecânico das teclas, os truques mecânicos da vida. A consciência do pré-determinado: Um dia cessarei de gerar, no ritmo incerto de um mês mal medido, esta liquidez viva que me dói sem me doer e me contrai as entranhas.
E então as contracções serão no peito, e eu hei-de parir, com a dor maior das coisas que nos ficam cá dentro, um grito engolido à força, empurrado pela certeza de tudo o que simplesmente não pode ser de outra forma. Como os filhos que não teremos chegado a ter. Porque há tempo, e ciclos, e idades. Porque há sangue que se esgota. Que deixa de doer para passar a faltar. [O teu. O meu.] Metamorfose de uma ferida que não cura. Que não passa apenas porque há tempo, ou ciclos, ou idades.
Nos intervalos dos vocábulos, pausas de estranheza. As poeiras das não-palavras. Os nomes que não hei-de aprender. Porque, curioso, o tempo existe e não o temos.  Porque existe mas não nos tem. Fluxo incolor. Alheio a outras cadências que não a sua. Um ritmo exacto. Não como este, que corre descompassadamente para fora de mim, enquanto escrevo, desencontrada de sentidos com sentido, sobre os dias em que podia ter-te sido um corpo-semente, um corpo-raiz. Sobre os dias meus em que tu não estiveste. Em que tu não estavas ainda. E sobre aqueles em que já não estavas.

Um desacerto de seivas que corre para fora de mim                
                                                                                             

                                            e não me deixa.


[texto publicado originalmente aqui ]


terça-feira, 2 de abril de 2013

Zulmira morreu 12: Folhas Caídas



Quem disse que as folhas se soltam das árvores? Elas não se soltam, desprendem-se dos ramos com a violência das coisas quando morrem, e ao bater no chão o ruído que fazem é estridente. É atroz. Na sua travessia pelo ar deserto do tempo em decomposição desintegram-se da vontade, fecham os olhos, e perdem noção do rumo que lhes foi entregue pelo vento. Por vezes largam partículas lacrimais, ínfimas partes químicas de um sentir imperceptível. Batimento cardíaco em degradação. Involuntário fragmento do sopro que duraram.
E não é leve a sua matéria. Pouco aptos quando se trata de ver por dentro, os nossos olhos não vêem a procelosa vertigem do seu corpo em convulsão precipitando-se na floresta de lâminas que compõe a aerosfera que nos respira, arrastando todos os pesos com que a existência se vai inviabilizando.
Zulmira sentiu-se folha em queda durante toda a sua vida.
No seu último Outono teve a oportunidade de aprender mais sobre folhas secas e caídas. Não sobre os factos processuais por detrás do seu destino outoniço, como a diminuição de produção de clorofila que altera as suas tonalidades, ou a produção de ácido abscísico que acaba, por provocar a sua queda por via do enfraquecimento do pecíolo. Nada disso. Disso, Zulmira nada sabia.
Mas aprendera sobre a sua textura. Sobre as suas formas e sobre as suas deformações. Sobre as inúmeras combinações gráficas possíveis com os seus veios desidratados. Para isso bastou aquele seu encanto pelas coisas simples, o mesmo com que os seus pés amavam o toque nu do chão. E ver a sua filha a preparar uma composição plástica exclusivamente à base de folhas. Folhas secas, nuas e sós. Solidões sobrepostas sem cumplicidade. Mortes irreversíveis a suplicarem um travo de atenção, um rasgo de vida sobre si. Quando a filha terminou o seu quadro, Zulmira permaneceu uma hora a contemplar aquela obra nascida de tantas mortes. Observou folha a folha, imaginou o desenho da sua queda, mediu com o pensamento os seus perímetros e calculou as suas idades. Depois levou o dedo indicador a uma delas e lavou a voz com um suspiro. E ténue, ouviu-se dizer: esta sou eu


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 11: A felicidade anda descalça




Houve um tempo na vida de Zulmira, antes do cansaço último, daquele sopro de morte, [apagão definitivo das claridades], em que a mulher dentro de si soube conciliar a paz com o silêncio da alegria. Essa capacidade vinha-lhe, talvez, dos filhos. Dos seus olhos a pedirem essa sua paz. Nesse tempo Zulmira aprendera a viver por dentro das coisas verdadeiramente importantes: leite morno, arroz doce e fatias de bolo de laranja, o cheiro a refogado de ternura e dedicação. E deixara para lá da porta da sua casa tudo o que não lhe fazia falta: roupa apertada, julgamentos alheios, e sapatos.
Esta última opção provocava estranheza nas almas desocupadas dos outros, os que não importavam, os que gostavam de atirar à cara de Zulmira a sua sorte por ter um sapateiro em casa. Nessas ocasiões uma frase emergia das suas entranhas mais profundas para lhe subir através da pele e se lhe alojar nos olhos, que corriam a fixar-se num ponto imperceptível do tempo, naquele segundo fora de todos os relógios, como se em busca de um infinito inacessível: A felicidade anda descalça. Zulmira não sabia colocar esta ideia de outra forma. Era como um poema de um verso só a bailar-lhe no pensamento: A felicidade anda descalça.
Por vezes Zulmira floreava o seu poema, e acrescentava à felicidade a ausência de rímel nos olhos. Ou de tinta no cabelo. Mas o verso continuava ainda assim único. Porque só ele fazia sentido quando lhe falavam da sua sorte. Como se estar descalça já implicasse estar desprovida de todos os outros artifícios que a humanidade foi inventando para complicar a vida.
Se a felicidade usasse sapatos, não haveria forma de sentir as cócegas das flores sob as plantas dos pés. Nem a textura das suas pétalas, nem o viço da  sua seiva. E que dizer da neve branca, do arrepio matinal da relva húmida, ou da areia quente das praias deste mundo?
E foi por isso que Zulmira deixou de usar sapatos. Só os calçava quando a saída à rua impunha que o fizesse. Em casa Zulmira recusava tudo o que pudesse incomodar o contacto dos seus pés com o chão. O chão que era a sua verdade, o seu jardim de doces flores e fresca relva. Da fria neve e das areias quentes. O chão onde os muros começavam sem que nunca se tocassem.
Zulmira já sabia o que era ter a alma dos sapatos partida, já sabia o que era usar sapatos apertados e desajustados, e se por algum tempo podia descansar dos apertos e dar passos mais livres, aproveitava.
Em pouco tempo Zulmira contagiara os filhos com aquela sensação de contacto com a simplicidade das coisas através da libertação dos pés. E a determinada altura, andavam todos descalços lá em casa. Todos, menos o pai dos filhos de Zulmira, Joaquim, o sapateiro. 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Zulmira morreu 10: O sonho de Zulmira




Depois da morte de todos os brancos do seu vestido de noiva, Zulmira arrumara as sombras remanescentes dentro de um baú de madeira herdado da sua mãe. Sabia que a madeira era porosa. Sabia que o baú havia de transpirar as sombras para o seu dia-a-dia. Não o sabia por estas palavras, mas por outras, mais simples. Mas queria preservar os olhos das poeiras de fumo depois da combustão das claridades de que ainda conseguia lembrar-se.
Mas à noite os olhos fechavam-se e iam para onde Zulmira não tinha mão neles. E então viam tudo. Não viam com a clareza das coisas reais. Na verdade viam coisas que não entendiam. Metáforas que escapavam à sua compreensão. A mais habitual, [o sonho mais recorrente], era aquela em que corria nua, com os seus sapatos velhos, atrás de uma charrete. Quando a distância já era muita, a charrete parava, como se fosse esperar por ela. Mas assim que a distância encurtava até um determinado ponto arrancava de novo e Zulmira, desesperada, corria, e corria, até que por fim era derrubada pela força gravítica do seu cansaço e pela alma partida dos seus sapatos. Era então que a violência se assumia como dona do rumo de todos os desfechos, e numa súbita nuvem de vento nascia imparável a charrete que se precipitava na sua direcção. Tudo acontecia com tal rapidez que seria impossível a Zulmira levantar-se. Mas uma mão gigante surgia então do céu e varria com a mesma violência a carruagem do seu trajecto. E Zulmira ficava a salvo. Durante os breves segundos em que aquela mão salvífica rasgava os seus olhos, Zulmira conseguia sempre ver, com uma nitidez inusitada, quase sobrenatural, um anel de latão num dos dedos. Um anel que conhecia bem. E ainda que não percebesse nada de sonhos nem de metáforas, Zulmira percebia então tudo o que havia para perceber: acabara de ser salva, de novo, pela sua mãe. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Zulmira morreu 9: da inocência e do pecado



Nos momentos mais tristes Zulmira sentava-se nos degraus. Gostava daquela sensação de desnivelamento da realidade. Sentia que a inconstância daquela superfície dava sentido à sua alma inquieta, cheia de dúvidas. Como se subir e descer com o pensamento fosse comparável à oscilação das respostas face ao ritmo pendular das perguntas. 
No dia em que Zulmira decidiu ir ter com o padre da terra teve a esperança de que este lhe daria uma planície de tranquilidade, um patamar de justiça em que repousar da subida íngreme ao cume dos seu esforço. A oportunidade de ficar sentada para sempre num degrau, a admirar, passiva, o nivelamento pacífico do seu coração.
O que Zulmira não sabia é que a Igreja é, também ela, cheia de degraus. Degraus sumidos, feitos para pés pequenos e passos normalizados. E Zulmira percebeu que afinal o que tinha eram pecados, não dúvidas. Descobriu que tinha tantos pecados que ficou assustada e teve medo de morrer naquela hora e ir para o inferno. Uma mulher cheia de maus pensamentos, com desejos de deixar o seu homem para ter outros homens, egoísta e intolerante, incapaz de perdoar. Ela, a Zulmira, a mulher simples que não imaginava outro afecto que os abraços dos seus filhos, que todas as noites rezava uma oração pelo marido, que cicatrizava as nódoas negras com lágrimas silenciosas. Que não conhecia a ira, que não queria vingança, mas apenas descansar da infelicidade. Sim, passou-lhe pela cabeça deixar o marido. Estava convencida de que seria melhor para todos. Mas agora o padre vinha dizer-lhe que isso era um pecado mortal. Que o casamento era sagrado. Indissolúvel. Que cabia às esposas serem pacientes com os maridos.
Quando naquele dia chegou da Igreja Zulmira trazia, então, a desilusão de uma corrente interrompida, de um mar partido ao meio. Sentada na escada, as esquinas de cada degrau pareciam agora mais vivas. Sentia que podia cortar-se e esvair-se de sangue se roçasse os pulsos nas suas arestas. Zulmira descobrira os seus pecados e não sabia o que fazer com eles. Sentia-se suja e incapaz de se lavar. Uma torrente de tristeza, veloz e enfurecida, levando a esperança para o abismo de uma tempestade de que nunca sairia incólume.
Zulmira temia Deus. E não sabia que era inocente. E assim se deixou condenar. Degrau a degrau.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Zulmira morreu 8: Da quantificação de um nome


Adriano. Chama-se Adriano. Zulmira chegou a sabê-lo porque no dia do seu casamento recebeu um envelope. Trazia um nome: Adriano Vilar. E dentro, um cheque. Zulmira nunca mais vai esquecer o cheiro que se esquivou do interior do envelope quando lhe rasgou um dos lados. Era um cheiro diferente de todos os cheiros que já experimentara. Zulmira nunca vira um cheque antes. Nunca lhe sentira o cheiro. Um cheiro a papel em decomposição a misturar-se com perguntas numa intriga digna das novelas que por vezes gostava de ver na televisão. Não era bem que acreditasse nos enredos retorcidos daquelas tramas ficcionadas com finais felizes, porque ela sabia como ninguém que às vezes os bons morrem no fim das estórias. Mas aquela brisa com travo a conto de encantar que lhe vinha do ecrã fazia-lhe bem, e por momentos esquecia que sua vida era tão real.
Um arrepio varreu-lhe a pele sob o vestido branco, um branco não tão branco assim, cheio de claridades moribundas, como todos os brancos. Alargou atrapalhadamente o rasgão do envelope, esventrando aquele outro branco - também ele não tão branco assim - e três palavras caíram-lhe aos pés.
Zulmira colou os olhos àquele pedaço de papel mal rasgado. Percebia de cicatrizes e viu-lhe mil marcas. Percebeu a falta de cuidado na forma como a nota fora acomodada dentro do invólucro. Percebeu as mãos rudes, os gestos brutos. Zulmira percebeu tanta coisa. Tanta coisa que não cabia num nome, nem na soma simples de números com um nome.
E o cheque tinha mesmo muitos números a compor um número grande. Zulmira nem sabia ler um número tão grande mas soube logo que aquele dinheiro daria para comprar tantas coisas. Mas não seria suficiente para lhe devolver a mãe. A mãe que gastara os pulsos no relento gelado da solidão, que esgotara os olhos sob o sol corrosivo de jeiras sucessivas.
Era um número mesmo muito grande. Mas Zulmira sabia mais, muito mais. Sabia que há coisas que não cabem num nome, nem na soma simples de números com um nome e três palavras.
Rasgou o cheque, o nome e as três palavras. Rasgou tudo enquanto misturava as suas lágrimas com a memória do choro amarrotado da mãe sob a mordaça do silêncio das noites. A memória do ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
O tempo passou e Zulmira nunca falaria desse nome aos filhos. Pensou que, depois de rasgado, esse nome não voltaria às suas vidas.
E por isso é tão difícil para a filha mais velha de Zulmira perceber este momento, em que um envelope com um cheque, um nome e três palavras lhe paira nas mãos e tudo o resto lhe chega aos lábios:
Do vosso avô. Adriano Vilar.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Zulmira morreu 7: Um céu que se foi



Há céus que nascem e morrem num mesmo dia. Que são irrepetíveis. Há céus que só acontecem uma vez. O ocaso a passar na tela do horizonte, devagar, e Zeferino só consegue pensar que há céus que não voltam a nascer, que só acontecem uma vez. Por isso quer reter na pupila os tons específicos daquele sol aceso sobre o pano engelhado daquele céu concreto. E reter os contornos precisos da dor que lhe levou um certo céu.
Zeferino sabe que a vida é um estado transitório. Uma condição temporária. Hoje sabe melhor do que ontem que assim é. Mas nunca tinha pensado que há céus que não se repetem. Sempre pensou que o mesmo céu estaria lá todos os dias.  Independentemente de tudo o que acontecesse. Mas agora sabe mais. Sabe na pele. Nos olhos e na ponta dos dedos. No corpo todo. Sabe que há céus que se levam e não voltam a existir.
Zulmira nascera sob um céu denso e negro. Um céu carregado de nuvens, ásperas e cinzentas, a roçarem a claridade de uma manhã, também ela única. Zeferino não estava lá. Nascia, também, mas sob um outro céu. Um céu límpido, transparente. A deixar perceber a textura de todo o universo.
Nasceram ambos no mesmo dia. Só que o céu não era o mesmo.
Passaram muitos céus entretanto.
Mas houve um dia em que Zulmira e Zeferino se encontraram. Aconteceu-lhes, então, um céu comum. Chovia. Era o tempo das trovoadas. O mês de todos os desabafos do céu. E o céu era o mesmo, Um céu comum. Um céu acidificado de tanto respirar a energia poluída da terra. Um céu psicadélico aos gritos.
Zulmira deitava gritos, também, dos olhos. Mas sem ruído. Relâmpagos silenciosos. O lado esquerdo do seu rosto misturava-se com todos os negros daquele dia. Zeferino foi o agente incumbido de interrogar Zulmira. Mas Zulmira não queria falar. Nem queria estar ali. Se não tivesse sido encontrada inconsciente em casa não estaria ali. Que a deixassem ir, pedia. Que tinha sido um acidente, repetia. Caíra, e pronto. Batera com rosto no chão e desmaiara. Zeferino nunca vira Zulmira antes. Mas percebeu que aquele céu que lhes acontecia era especial. Quis pegar-lhe na mão e levá-la para um chão seguro, onde o céu seria sempre azul. E sempre o mesmo. Sentiu-se atravessado de um raio de ternura. Um raio luminoso e eletrizante. Queria mesmo pegar-lhe na mão e levá-la para o chão da sua alma. Salvá-la. Mas Zeferino teve medo. Nunca vira Zulmira antes. Não sabia nada daquela mulher. Só a intuição lhe fundamentava o apelo. Naquele momento a intuição pareceu-lhe insuficiente. E deixou que Zulmira partisse sem apresentar queixa alguma contra o marido. Deixou que voltasse na direção das mãos que haviam enegrecido o seu rosto.  
Agora, três dias depois, diante de um ocaso que nunca haverá de esquecer, despede-se de um céu que se foi para sempre. Um céu que teve nas mãos. Um céu que podia ter aprisionado na cela do seu nobre coração. Um céu que deixou escapar por entre os dedos escorregadios da insegurança.
Zeferino foi o agente chamado à casa de Zulmira para tomar conta da ocorrência da sua morte. E agora despede-se de um céu. Que se foi para sempre.

[crónica publicada no Mensageiro de Bragança, ed. de 17.05.2012]


terça-feira, 20 de março de 2012

Zulmira morreu 6: Da alma que as coisas têm


O pai dos filhos de Zulmira é sapateiro por herança. Aprendeu com o seu pai, que aprendera com o avô, a consertar esses indispensáveis acessórios com que caminhamos pela vida. Como se só de chão se fizessem os passos. De chão e de pés. O marido de Zulmira percebia tudo o que havia para perceber de solas e de saltos. Dizia o povo que era um bom sapateiro.
Foi nessa sua condição de cuidador dos passos das gentes da aldeia que Zulmira o conheceu. Um homem alto e robusto. De mãos firmes e fortes. A zelar pelo bom caminhar dos outros.
Como a mãe sempre cuidara do seu. Levando ela própria os sapatos ao sapateiro quando tal se assumia como inadiável. Mas agora que a mãe se levara, de pés e passos, do seu caminho, Zulmira tinha de cuidar do seu próprio andar.
Rumou à oficina. Lá chegada, entregou-lhe os sapatos velhos.
Precisam de umas solas novas.
Joaquim baixou os olhos, desconfiado. A questionar a história daqueles sapatos de atacadores gastos. A imaginar idas e vindas presas nos mil nós que os gastaram. Mediu a proporção de medo na espera de Zulmira, na estranheza do cheiro aceso a graxa e cabedal. Discretamente. Pressentiu o seu jeito de presa fácil na evidência da solidão que trazia agarrada aos olhos. Reconheceu-a. Já a vira passar ao longe. Já ouvira falar dela. Zulmira, a zorra. Conhecera a mãe. Ouvira falar da sua morte. Observou de novo os sapatos. Dobrou um deles como se procurasse o limite da sua flexibilidade para determinar a sua idade. E depois veio-lhe a voz.
Este sapato tem a alma partida.
Zulmira recolheu-se por segundos ao espanto da descoberta de que os sapatos tinham alma.
E como se conserta a alma?
E cruzando sentidos, Joaquim confundiu vocábulos com significados, propositadamente.
Precisa de uma alma nova.
Zulmira acreditou naquele momento que o melhor seria dar uma alma nova ao seu sapato. Ainda que não acreditasse na substituição de algo tão essencial.
E Joaquim preparava-se para forçar a realidade de todas as coisas
[da alma que todas as coisas têm]
 rumo a um sentido muito seu. E reconstruiu o sapato de Zulmira, como se assim lhe reconstruísse a vida.
Mas Zulmira nunca chegaria a habituar-se à dureza da nova alma do seu sapato. Porque os pés de Zulmira já se haviam afeito ao jeito enviesado com que, rasos, beijavam o chão.
Zulmira acabou por perceber que não deveria ter trocado de alma. Que a primeira verdade das coisas é sempre maior. Mesmo partida, Zulmira dava tudo para ter de volta a curvatura viciada que lhe enformava os passos quando tudo lhe era tão verdadeiro. Mas por essa altura já o sapateiro Joaquim cobrara o seu preço pelo (des)conserto da alma de todas as coisas de Zulmira.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Aconteceu.... falar de poesia

[Aconteceu no passado dia 7]

O tempo de nos darmos é um tempo precioso.  Porque é tanto o que trazemos nos bolsos das coisas vividas. Intensamente.

Agradeço, por isso, ao Agrupamento de Escolas de Macedo de Cavaleiros o convite que me foi feito para falar de poesia com algumas das suas turmas de nono ano.
E como lembrança maior deste momento, deixo registado o interesse e a vastidão de perguntas colocadas, a sublinharem bem como são profundos, afinal, os nossos jovens.  Bem hajam todos.

Convite


clique para ampliar, p.f.

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Uma luz que nos nasce por dentro" - lançamento

"Nasceste quase pequeno. Quase cabível na palma da minha mão. Quase tão pequeno. Não fora seres enorme
[Tão enorme que nunca coubeste nos meus olhos abertos]
Terias nascido pequeníssimo.
E agora olho para ti
[de olhos fechados para que me sejas inteiro]
e sei que vais crescer. "

In "Uma luz que nos nasce por dentro"

Momentos da sessão de lançamento, no dia 25 de Fevereiro, em Lisboa.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Zulmira morreu 5: Os olhos de José

Talvez um dia o pequeno José venha a descobrir a temperatura precisa de cada cor e possa assim pressentir com a ponta dos dedos os contornos das coisas para além dos declives e saliências das formas. Zulmira nunca se cansava de dizer-lhe como eram belos os seus dedos. Transparentes a todas as verdades. Permeáveis à honestidade do seu rosto. Muito mais puros que os outros olhos. Os que todos temos. Zulmira encontrava em José a paz de chorar e sorrir com uma sinceridade que não se mostra aos olhos de ninguém. Mas que somos capazes de contar aos dedos do nosso pequeno filho. Com a voz despida de ciscos. Com os lábios abertos às lágrimas. Zulmira sabia que talvez os nove anos de José não fossem divisíveis em dias, mas em plúmbeas e arrastadas sequências temporais múltiplas desses dias. Dos dias dos outros. Uma medida a que ainda ninguém conseguiu dar nome. A compreensão de tudo era para si um esforço para além do que devia exigir-se a um menino de nove anos. Por isso Zulmira sabia que os nove anos de José talvez não fossem, afinal, nove anos, mas nove vezes o tempo em que se propagava o seu esforço. Isso descansava um pouco Zulmira, que olhava para o seu filho e imaginava um verdadeiro homenzinho. Capaz de ver o que os seus outros filhos nunca haveriam de ver. Mas os seus pés ainda não caminhavam sozinhos. E havia passos que à data da morte de Zulmira o pequeno José não sabia dar por si. Também o pequeno José procurava e precisava da mão da sua mãe. Para fazer melhor tudo o que já fazia. Para aprender o que não aprendera ainda. Para descobrir todos os obstáculos por vir. Para ir à rua e memorizar todos os caminhos possíveis.
Desde a morte de Zulmira José não voltou à escola por muito tempo. José esperava que um dia alguém se lembrasse que tinha dedos. E que com eles poderia guardar no pensamento o mundo e todas as coisas que existem. Como a sua mãe lhe ensinara. “Meu pequeno José, os teus dedos são um milagre de Deus!”, dizia-lhe.
E por isso José, que é cego, que não conhece as cores, mas que conhecia a temperatura precisa da mão da sua mãe, sabe que tem dedos. E na ponta dos seus dedos é tão maior e mais depurada a saudade do rosto de Zulmira.
E talvez um dia o pequeno José venha a descobrir como colorir o chão monocromático da ausência doída da sua mãe. Mas há uma cor irrepetível. Que se foi para sempre.


EM AGENDA

sábado, 10 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 4: O Natal sem a Zulmira


Este vai ser o primeiro Natal da família sem a Zulmira. Na verdade, talvez este seja, antes, o primeiro Natal de todos sem família.
Dizem que as mulheres têm uma enorme capacidade de se desdobrarem em mil e uma funções. E assim se tornam a malha que une todos os pontos. A consistência que dá sentido à dispersão. A sábia substância que torna coesos os dias. Zulmira era um exemplo dessa paradigmática vocação feminina. E muito mais. Como um dado atirado sobre a vida dos outros, Zulmira tinha o dom de cair sempre com a face certa para cima. Porque não obstante ter o seu tempo para mergulhar na dormência profunda do seu veneno incolor, e vasculhar nas entranhas da inconsciência até encontrar os contornos da sua paz, Zulmira emergia depois à superfície com um vigor que contagiava a atmosfera com aqueles cheiros alquímicos a bolo quente e a arroz doce. Vinha carregada de ternura. Uma sensação que se lhe granulava nos olhos e a fazia sentir-se segura na paisagem dos seus filhos entregando-se ao prazer de uma fatia de bolo com leite morno. Aquele era sempre o retorno a uma espécie de génese da alegria. Ao momento de uma certa criação. Aquele momento que durou os primeiros sete anos da sua vida.
O filho mais novo de Zulmira terá, por essa lógica, completado ontem o ciclo da sua criação. Fez sete anos. Zulmira teria desejado estar presente para lhe fazer um bolo. Para lhe lembrar que, não obstante o universo estar viciado na programação septenária de todas as coisas, ele era ainda, e apenas, uma criança. Colocar-lhe um copo de leite morno nas mãos e dizer-lhe
toma o leitinho todo, meu amor, para seres um homem grande.
E, quem sabe, talvez essas precisas palavras lhe vão fazer falta. Talvez, por causa da falta que lhe vão fazer, o pequeno Tomás não cresça tanto quanto devia.
A mãe do Tomás era a sua família. A sua família toda. E Tomás não perdeu apenas a sua mãe. Porque sem Zulmira, a sua filha mais velha deixou de saber para que serve e não se lembra que é a irmã mais velha de alguém. E o seu pai anda tão ocupado a pensar no que vai fazer com a raiva que já não pode dar a Zulmira, que não se lembra que tem filhos. E o outro irmão do Tomás queria muito oferecer-lhe, como prenda de natal, um céu que lhe fosse azul. Mas o pequeno José não conhece as cores.
Assim, este será o Natal de uma única surpresa: a perceção doída de cada um estar tão só.


[escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Zulmira morreu 3: Da infância de Zulmira


Zulmira crescera numa pequena aldeia sob o estigma da bastardia. Zulmira, a zorra, chamavam-lhe na aldeia. Num aproveitamento básico da aliteração ironicamente acidental. Não lho chamavam directamente. Como se, poupando-lhe os ouvidos das palavras, lhe suprimissem o respectivo eco no peito. Mas era assim que falavam dela.
A mãe era uma boa mulher. Calhara ter acreditado que os frémitos do corpo tinham sempre raízes na alma. Nos sentimentos puros e castos que nascem muito antes da pele. E assim se entregou à desonra, inocente e apaixonada.
O desencanto que lhe tomou os restantes dias da existência depois da dolorosa lição com que a vida lhe tirou a inocência foi tal, que a mãe de Zulmira nunca mais quis saber de homem nenhum. E muitos foram os que, por via da sua condição de desonrada, tentaram a sua sorte. Mas nenhum deles chegou a experimentar o deleite das suas formas de mulher.
Zulmira admirava a mãe. Levantava-se cedo para ir à jeira. Trabalhava de sol a sol. E trabalhava quando não havia sol e o gelo lhe tomava os pulsos, torturando-lhe os gestos. Trabalhava como poucas mulheres, para criar a pequena Zulmira.
Zulmira sofria com o afastamento dos avós, que renegaram a filha desonrada e a neta ilegítima. Mas nada dizia à mãe para não aumentar o fluxo de lágrimas que todas as noites ela entregava ao cansaço na quietude do travesseiro. Zulmira bem ouvia o seu choro amarrotado sob a mordaça do silêncio. O ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
Acordava Zulmira com uma carícia na testa. Todos os dias. E todos os dias lhe dizia Deus te abençoe, minha filha.
Quando Zulmira entrou para a escola, a mãe temeu pela segurança emocional da filha. As outras crianças haviam de constantemente lembrar a pequena, com requintes de malvadez, da sua condição de zorra. Todos os dias. Apoquentada, resolveu antecipar-se e foi à escola, falar com a professora. Contou-lhe a história da sua vida. Comovida, pediu-lhe que não castigasse a filha pelos erros da mãe. Que a tratasse como às outras crianças. Que não deixasse as outras crianças humilharem a sua menina.
A professora disse-lhe que sim. Mas no dia seguinte decidiu, sem querer, que Zulmira seria a sua pior aluna. Porque nenhuma menina sem pai poderia ter aproveitamento escolar. E colocou-a na última fila da sala. Sem querer. Seguindo, inconsciente, os trilhos fáceis deixados pelos estigmas sociais da época.
Zulmira percebeu. Mas não quis apoquentar mais a mãe. Nem mesmo quando as outras meninas começaram a gozá-la no recreio, por ter um pai que não era pai dela. A mãe nunca lhe explicara claramente o que acontecera para que nunca tivesse conhecido o seu pai. Mas Zulmira sabia que enquanto tivesse aquela mãe nenhum pai lhe faria falta. Era tácita mas sólida a cumplicidade que as unia. Numa teia apertada de emoções pela qual se excluíam do mundo.
Por isso, quando a mãe lhe faltou, aos 21 anos de idade, Zulmira perdeu-se nas malhas dos afectos fáceis. Tropeçou tragicamente no pai dos seus três filhos e na queda perdeu o andar. E assim se tornaria dependente. Para sempre.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jorge de Sena: a inteligência e a frontalidade de um génio



"O nosso mal, entre nós, não é sabermos pouco; é estarmos todos convencidos de que sabemos  muito. Não é sermos pouco inteligentes; é andarmos convencidos de que o somos muito."

"O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos."

Jorge de Sena





Jorge de Sena, escritor, crítico, poeta, ensaísta e professor universitário, nasceu em Lisboa, em 1919. Ao longo da sua vida escreveu obcecadamente, não obstante ter sido, em vida, muto mais criticado (Eugénio Lisboa fala mesmo em "calúnia") do que reconhecido.
Por não se conformar com a marginalização a que quiseram votá-lo, Jorge de Sena foi, não raras vezes, acusado de arrogante. Mas hoje o que se lhe reconhece é uma grande frontalidade, atitude que exerceu ao longo da vida de forma coerente e sempre provido de uma inteligência insuperável. Como todos os génios, a sua grandeza ofuscou a pequenez de muitos dos que, à data, insistiram em manter pequeno o universo da cultura e da literatura. Jorge de Sena não hesitou em resistir a esta realidade atrofiante.
Traçando o seu perfil, Eugénio Lisboa define o escritor como "inteligente num terreno de plantas sensitivas, trabalhador numa corporação onde abundam os madraços com ambições, estudioso num contexto de preguiçosos intelectuais, poeta mas também crítico e erudito, professor mas convivente brilhante e caloroso, académico mas salutarmente malcriado, literato em tempo quase inteiro mas de formação científica e filosófica, o que incomoda sempre mais gente do que aquela que gosta de ser incomodada."
Jorge de Sena faleceu em 1978, nos Estados Unidos, onde residia desde 1965, partilhando a sua vasta aptidão intelectual como professor universitário, sendo que nos últimos oito anos como catedrático de Literatura Comparada na Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara.

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«Quem a tem...»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena in "Fidelidade" - Poesia II, Lisboa, 1978

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O receio da morte é a fonte da arte


Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte


Excerto do poema "A fonte da arte", de Ruy Belo
in "Despeço-me da Terra da Alegria"



Ruy Belo foi um poeta e ensaísta português, hoje considerado um dos maiores do século XX.
Nasceu em 1933, em S. João da Ribeira (Rio Maior). Licenciado em Direito e em Filologia Românica, viria a  doutorar-se em Direito Canónico.
Sobre a sua obra disse um dia José Tolentino Mendonça,  ter "uma originalidade e um fulgor incontornáveis. É um ponto de luz, um grande momento de transfiguração da língua".
De facto ler Ruy Belo é, também para mim, um momento de transfiguração, pela sabedoria que é a seiva da sua escrita, só por si de uma beleza ímpar.
Impressiona-me especialmente o seu último livro publicado em vida, em 1977, a que chamou "Despeço-me da Terra da Alegria". Um ano mais tarde viria a falecer, com apenas 45 anos, vitimado por um edema pulmonar.
No prefácio da quarta edição desta obra, 22 anos depois,  Eduardo Prado Coelho recorda que "raramente um poeta preparou tão bem a sua morte antecipada como Ruy Belo, com este livro breve, terrível, vertiginoso, aparentemente desesperado, no fim de contas sereno".

sábado, 17 de setembro de 2011

Zulmira morreu 2: Da desorientação


A filha mais velha da Zulmira tem 17 anos e vai para o 12º ano. Arrasta ainda nos olhos, lentos e mortiços, aquela angústia de não saber muito bem para que se serve.
[Se é que se serve para alguma coisa.]
A mãe morreu-lhe na pior altura da vida, portanto. Porque quando nos perdemos, é sempre a mão da nossa mãe que procuramos. É essa mão que, na infância, nos leva de volta ao caminho certo quando nos desviamos. Se vamos no extremo do passeio a mãe pega-nos pela mão e orienta-nos para o lado de dentro, onde estamos protegidos de eventuais atropelamentos. Se entramos no corredor errado do supermercado e percebemos, em pânico, que estamos sozinhos, a voz da nossa mãe há-de atravessar as prateleiras dos enlatados ou dos cereais para nos salvar, anunciando a chegada das suas mãos para muito breve. Se decidimos construir um avião de papel e quase perdemos a paciência porque não atinamos com as dobras necessárias, são os gestos da nossa mãe que descobrem a sequência certa, repondo a paz de se saber que se está a ir bem.
Mas agora a filha mais velha da Zulmira não tem as mãos nem os gestos da mãe. Tem o pai, é verdade. E em muitos casos os pais são bons substitutos das mães. Mas não neste caso. O pai dos filhos da Zulmira seria mais capaz de empurrá-los para a estrada do que de ajudá-los a construir um avião de papel. E jamais salvaria a sua filha mais velha da solidão de corredor algum. E o corredor da Zulmira não tem sinalização. Porque a bem da verdade, a mãe tinha as mãos, mas não teve tempo de lhe construir os sinais antes de enlouquecer. Nem sentidos proibidos, nem sentidos obrigatórios, nem sinais de perigo. Nada. A coisa mais parecida com um sinal que a filha mais velha da Zulmira tem é uma seta desenhada no seu corredor pelo psicólogo que lhe destacaram na escola. Mas é uma seta dúbia e a rapariga não confia nela. Porque em vez de apontar um caminho certo, a seta faz-lhe pergunta e dobra-se ao sabor das respostas. Ora, que seta é esta que não se decide?
A filha mais velha da Zulmira está verdadeiramente desorientada. Não sabe mesmo para que serve. Nem para onde deve ir para que acabe por servir para alguma coisa.
A única coisa que a filha mais velha da Zulmira sabe é que quando a mãe existia ela servia para dar abraços.

[texto publicado na edição de Agosto de 2011 do jornal Cipreste]