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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Zulmira morreu 10: O sonho de Zulmira
Depois da morte de todos os brancos do seu vestido de noiva, Zulmira arrumara as sombras remanescentes dentro de um baú de madeira herdado da sua mãe. Sabia que a madeira era porosa. Sabia que o baú havia de transpirar as sombras para o seu dia-a-dia. Não o sabia por estas palavras, mas por outras, mais simples. Mas queria preservar os olhos das poeiras de fumo depois da combustão das claridades de que ainda conseguia lembrar-se.
Mas à noite os olhos fechavam-se e iam para onde Zulmira não tinha mão neles. E então viam tudo. Não viam com a clareza das coisas reais. Na verdade viam coisas que não entendiam. Metáforas que escapavam à sua compreensão. A mais habitual, [o sonho mais recorrente], era aquela em que corria nua, com os seus sapatos velhos, atrás de uma charrete. Quando a distância já era muita, a charrete parava, como se fosse esperar por ela. Mas assim que a distância encurtava até um determinado ponto arrancava de novo e Zulmira, desesperada, corria, e corria, até que por fim era derrubada pela força gravítica do seu cansaço e pela alma partida dos seus sapatos. Era então que a violência se assumia como dona do rumo de todos os desfechos, e numa súbita nuvem de vento nascia imparável a charrete que se precipitava na sua direcção. Tudo acontecia com tal rapidez que seria impossível a Zulmira levantar-se. Mas uma mão gigante surgia então do céu e varria com a mesma violência a carruagem do seu trajecto. E Zulmira ficava a salvo. Durante os breves segundos em que aquela mão salvífica rasgava os seus olhos, Zulmira conseguia sempre ver, com uma nitidez inusitada, quase sobrenatural, um anel de latão num dos dedos. Um anel que conhecia bem. E ainda que não percebesse nada de sonhos nem de metáforas, Zulmira percebia então tudo o que havia para perceber: acabara de ser salva, de novo, pela sua mãe.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Zulmira morreu 9: da inocência e do pecado
Nos momentos mais tristes Zulmira sentava-se nos degraus. Gostava
daquela sensação de desnivelamento da realidade. Sentia que a inconstância
daquela superfície dava sentido à sua alma inquieta, cheia de dúvidas. Como se
subir e descer com o pensamento fosse comparável à oscilação das respostas face
ao ritmo pendular das perguntas.
No dia em que Zulmira decidiu ir ter com o padre da terra teve
a esperança de que este lhe daria uma planície de tranquilidade, um patamar de
justiça em que repousar da subida íngreme ao cume dos seu esforço. A
oportunidade de ficar sentada para sempre num degrau, a admirar, passiva, o
nivelamento pacífico do seu coração.
O que Zulmira não sabia é que a Igreja é, também ela, cheia
de degraus. Degraus sumidos, feitos para pés pequenos e passos normalizados. E
Zulmira percebeu que afinal o que tinha eram pecados, não dúvidas. Descobriu
que tinha tantos pecados que ficou assustada e teve medo de morrer naquela hora
e ir para o inferno. Uma mulher cheia de maus pensamentos, com desejos de
deixar o seu homem para ter outros homens, egoísta e intolerante, incapaz de
perdoar. Ela, a Zulmira, a mulher simples que não imaginava outro afecto que os
abraços dos seus filhos, que todas as noites rezava uma oração pelo marido, que
cicatrizava as nódoas negras com lágrimas silenciosas. Que não conhecia a ira,
que não queria vingança, mas apenas descansar da infelicidade. Sim, passou-lhe
pela cabeça deixar o marido. Estava convencida de que seria melhor para todos.
Mas agora o padre vinha dizer-lhe que isso era um pecado mortal. Que o
casamento era sagrado. Indissolúvel. Que cabia às esposas serem pacientes com
os maridos.
Quando naquele dia chegou da Igreja Zulmira trazia, então,
a desilusão de uma corrente interrompida, de um mar partido ao meio. Sentada na
escada, as esquinas de cada degrau pareciam agora mais vivas. Sentia que podia
cortar-se e esvair-se de sangue se roçasse os pulsos nas suas arestas. Zulmira
descobrira os seus pecados e não sabia o que fazer com eles. Sentia-se suja e
incapaz de se lavar. Uma torrente de tristeza, veloz e enfurecida, levando a
esperança para o abismo de uma tempestade de que nunca sairia incólume.
Zulmira temia Deus. E não sabia que era inocente. E assim se
deixou condenar. Degrau a degrau.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Zulmira morreu 8: Da quantificação de um nome
Um arrepio varreu-lhe a pele sob o vestido branco, um branco não tão branco assim, cheio de claridades moribundas, como todos os brancos. Alargou atrapalhadamente o rasgão do envelope, esventrando aquele outro branco - também ele não tão branco assim - e três palavras caíram-lhe aos pés.
Zulmira colou os olhos àquele pedaço de papel mal rasgado. Percebia de cicatrizes e viu-lhe mil marcas. Percebeu a falta de cuidado na forma como a nota fora acomodada dentro do invólucro. Percebeu as mãos rudes, os gestos brutos. Zulmira percebeu tanta coisa. Tanta coisa que não cabia num nome, nem na soma simples de números com um nome.
E o cheque tinha mesmo muitos números a compor um número grande. Zulmira nem sabia ler um número tão grande mas soube logo que aquele dinheiro daria para comprar tantas coisas. Mas não seria suficiente para lhe devolver a mãe. A mãe que gastara os pulsos no relento gelado da solidão, que esgotara os olhos sob o sol corrosivo de jeiras sucessivas.
Era um número mesmo muito grande. Mas Zulmira sabia mais, muito mais. Sabia que há coisas que não cabem num nome, nem na soma simples de números com um nome e três palavras.
Rasgou o cheque, o nome e as três palavras. Rasgou tudo enquanto misturava as suas lágrimas com a memória do choro amarrotado da mãe sob a mordaça do silêncio das noites. A memória do ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
O tempo passou e Zulmira nunca falaria desse nome aos filhos. Pensou que, depois de rasgado, esse nome não voltaria às suas vidas.
E por isso é tão difícil para a filha mais velha de Zulmira perceber este momento, em que um envelope com um cheque, um nome e três palavras lhe paira nas mãos e tudo o resto lhe chega aos lábios:
Do vosso avô. Adriano Vilar.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Zulmira morreu 7: Um céu que se foi
Há céus que nascem e morrem num mesmo dia. Que são
irrepetíveis. Há céus que só acontecem uma vez. O ocaso a passar na tela do
horizonte, devagar, e Zeferino só consegue pensar que há céus que não voltam a
nascer, que só acontecem uma vez. Por isso quer reter na pupila os tons
específicos daquele sol aceso sobre o pano engelhado daquele céu concreto. E
reter os contornos precisos da dor que lhe levou um certo céu.
Zeferino sabe que a vida é um estado transitório. Uma
condição temporária. Hoje sabe melhor do que ontem que assim é. Mas nunca tinha
pensado que há céus que não se repetem. Sempre pensou que o mesmo céu estaria
lá todos os dias. Independentemente de
tudo o que acontecesse. Mas agora sabe mais. Sabe na pele. Nos olhos e na ponta
dos dedos. No corpo todo. Sabe que há céus que se levam e não voltam a existir.
Zulmira nascera sob um céu denso e negro. Um céu carregado
de nuvens, ásperas e cinzentas, a roçarem a claridade de uma manhã, também ela
única. Zeferino não estava lá. Nascia, também, mas sob um outro céu. Um céu
límpido, transparente. A deixar perceber a textura de todo o universo.
Nasceram ambos no mesmo dia. Só que o céu não era o mesmo.
Passaram muitos céus entretanto.
Mas houve um dia em que Zulmira e Zeferino se encontraram.
Aconteceu-lhes, então, um céu comum. Chovia. Era o tempo das trovoadas. O mês
de todos os desabafos do céu. E o céu era o mesmo, Um céu comum. Um céu
acidificado de tanto respirar a energia poluída da terra. Um céu psicadélico
aos gritos.
Zulmira deitava gritos, também, dos olhos. Mas sem ruído.
Relâmpagos silenciosos. O lado esquerdo do seu rosto misturava-se com todos os
negros daquele dia. Zeferino foi o agente incumbido de interrogar Zulmira. Mas
Zulmira não queria falar. Nem queria estar ali. Se não tivesse sido encontrada
inconsciente em casa não estaria ali. Que a deixassem ir, pedia. Que tinha sido
um acidente, repetia. Caíra, e pronto. Batera com rosto no chão e desmaiara. Zeferino
nunca vira Zulmira antes. Mas percebeu que aquele céu que lhes acontecia era
especial. Quis pegar-lhe na mão e levá-la para um chão seguro, onde o céu seria
sempre azul. E sempre o mesmo. Sentiu-se atravessado de um raio de ternura. Um
raio luminoso e eletrizante. Queria mesmo pegar-lhe na mão e levá-la para o
chão da sua alma. Salvá-la. Mas Zeferino teve medo. Nunca vira Zulmira antes.
Não sabia nada daquela mulher. Só a intuição lhe fundamentava o apelo. Naquele
momento a intuição pareceu-lhe insuficiente. E deixou que Zulmira partisse sem apresentar
queixa alguma contra o marido. Deixou que voltasse na direção das mãos que
haviam enegrecido o seu rosto.
Agora, três dias depois, diante de um ocaso que nunca haverá
de esquecer, despede-se de um céu que se foi para sempre. Um céu que teve nas
mãos. Um céu que podia ter aprisionado na cela do seu nobre coração. Um céu que
deixou escapar por entre os dedos escorregadios da insegurança.
Zeferino foi o agente chamado à casa de Zulmira para tomar
conta da ocorrência da sua morte. E agora despede-se de um céu. Que se foi para
sempre.
[crónica publicada no Mensageiro de Bragança, ed. de 17.05.2012]
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Zulmira morreu 5: Os olhos de José
Talvez um dia o pequeno José venha a descobrir a temperatura precisa de cada cor e possa assim pressentir com a ponta dos dedos os contornos das coisas para além dos declives e saliências das formas. Zulmira nunca se cansava de dizer-lhe como eram belos os seus dedos. Transparentes a todas as verdades. Permeáveis à honestidade do seu rosto. Muito mais puros que os outros olhos. Os que todos temos. Zulmira encontrava em José a paz de chorar e sorrir com uma sinceridade que não se mostra aos olhos de ninguém. Mas que somos capazes de contar aos dedos do nosso pequeno filho. Com a voz despida de ciscos. Com os lábios abertos às lágrimas. Zulmira sabia que talvez os nove anos de José não fossem divisíveis em dias, mas em plúmbeas e arrastadas sequências temporais múltiplas desses dias. Dos dias dos outros. Uma medida a que ainda ninguém conseguiu dar nome. A compreensão de tudo era para si um esforço para além do que devia exigir-se a um menino de nove anos. Por isso Zulmira sabia que os nove anos de José talvez não fossem, afinal, nove anos, mas nove vezes o tempo em que se propagava o seu esforço. Isso descansava um pouco Zulmira, que olhava para o seu filho e imaginava um verdadeiro homenzinho. Capaz de ver o que os seus outros filhos nunca haveriam de ver. Mas os seus pés ainda não caminhavam sozinhos. E havia passos que à data da morte de Zulmira o pequeno José não sabia dar por si. Também o pequeno José procurava e precisava da mão da sua mãe. Para fazer melhor tudo o que já fazia. Para aprender o que não aprendera ainda. Para descobrir todos os obstáculos por vir. Para ir à rua e memorizar todos os caminhos possíveis.
Desde a morte de Zulmira José não voltou à escola por muito tempo. José esperava que um dia alguém se lembrasse que tinha dedos. E que com eles poderia guardar no pensamento o mundo e todas as coisas que existem. Como a sua mãe lhe ensinara. “Meu pequeno José, os teus dedos são um milagre de Deus!”, dizia-lhe.
E por isso José, que é cego, que não conhece as cores, mas que conhecia a temperatura precisa da mão da sua mãe, sabe que tem dedos. E na ponta dos seus dedos é tão maior e mais depurada a saudade do rosto de Zulmira.
E talvez um dia o pequeno José venha a descobrir como colorir o chão monocromático da ausência doída da sua mãe. Mas há uma cor irrepetível. Que se foi para sempre.
Desde a morte de Zulmira José não voltou à escola por muito tempo. José esperava que um dia alguém se lembrasse que tinha dedos. E que com eles poderia guardar no pensamento o mundo e todas as coisas que existem. Como a sua mãe lhe ensinara. “Meu pequeno José, os teus dedos são um milagre de Deus!”, dizia-lhe.
E por isso José, que é cego, que não conhece as cores, mas que conhecia a temperatura precisa da mão da sua mãe, sabe que tem dedos. E na ponta dos seus dedos é tão maior e mais depurada a saudade do rosto de Zulmira.
E talvez um dia o pequeno José venha a descobrir como colorir o chão monocromático da ausência doída da sua mãe. Mas há uma cor irrepetível. Que se foi para sempre.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Zulmira morreu 4: O Natal sem a Zulmira
Este vai ser o primeiro Natal da família sem a Zulmira. Na verdade, talvez este seja, antes, o primeiro Natal de todos sem família.
Dizem que as mulheres têm uma enorme capacidade de se desdobrarem em mil e uma funções. E assim se tornam a malha que une todos os pontos. A consistência que dá sentido à dispersão. A sábia substância que torna coesos os dias. Zulmira era um exemplo dessa paradigmática vocação feminina. E muito mais. Como um dado atirado sobre a vida dos outros, Zulmira tinha o dom de cair sempre com a face certa para cima. Porque não obstante ter o seu tempo para mergulhar na dormência profunda do seu veneno incolor, e vasculhar nas entranhas da inconsciência até encontrar os contornos da sua paz, Zulmira emergia depois à superfície com um vigor que contagiava a atmosfera com aqueles cheiros alquímicos a bolo quente e a arroz doce. Vinha carregada de ternura. Uma sensação que se lhe granulava nos olhos e a fazia sentir-se segura na paisagem dos seus filhos entregando-se ao prazer de uma fatia de bolo com leite morno. Aquele era sempre o retorno a uma espécie de génese da alegria. Ao momento de uma certa criação. Aquele momento que durou os primeiros sete anos da sua vida.
O filho mais novo de Zulmira terá, por essa lógica, completado ontem o ciclo da sua criação. Fez sete anos. Zulmira teria desejado estar presente para lhe fazer um bolo. Para lhe lembrar que, não obstante o universo estar viciado na programação septenária de todas as coisas, ele era ainda, e apenas, uma criança. Colocar-lhe um copo de leite morno nas mãos e dizer-lhe
toma o leitinho todo, meu amor, para seres um homem grande.
E, quem sabe, talvez essas precisas palavras lhe vão fazer falta. Talvez, por causa da falta que lhe vão fazer, o pequeno Tomás não cresça tanto quanto devia.
A mãe do Tomás era a sua família. A sua família toda. E Tomás não perdeu apenas a sua mãe. Porque sem Zulmira, a sua filha mais velha deixou de saber para que serve e não se lembra que é a irmã mais velha de alguém. E o seu pai anda tão ocupado a pensar no que vai fazer com a raiva que já não pode dar a Zulmira, que não se lembra que tem filhos. E o outro irmão do Tomás queria muito oferecer-lhe, como prenda de natal, um céu que lhe fosse azul. Mas o pequeno José não conhece as cores.
Assim, este será o Natal de uma única surpresa: a perceção doída de cada um estar tão só.
[escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico]
domingo, 4 de dezembro de 2011
Zulmira morreu 3: Da infância de Zulmira
Zulmira crescera numa pequena aldeia sob o estigma da bastardia. Zulmira, a zorra, chamavam-lhe na aldeia. Num aproveitamento básico da aliteração ironicamente acidental. Não lho chamavam directamente. Como se, poupando-lhe os ouvidos das palavras, lhe suprimissem o respectivo eco no peito. Mas era assim que falavam dela.
A mãe era uma boa mulher. Calhara ter acreditado que os frémitos do corpo tinham sempre raízes na alma. Nos sentimentos puros e castos que nascem muito antes da pele. E assim se entregou à desonra, inocente e apaixonada.
O desencanto que lhe tomou os restantes dias da existência depois da dolorosa lição com que a vida lhe tirou a inocência foi tal, que a mãe de Zulmira nunca mais quis saber de homem nenhum. E muitos foram os que, por via da sua condição de desonrada, tentaram a sua sorte. Mas nenhum deles chegou a experimentar o deleite das suas formas de mulher.
Zulmira admirava a mãe. Levantava-se cedo para ir à jeira. Trabalhava de sol a sol. E trabalhava quando não havia sol e o gelo lhe tomava os pulsos, torturando-lhe os gestos. Trabalhava como poucas mulheres, para criar a pequena Zulmira.
Zulmira sofria com o afastamento dos avós, que renegaram a filha desonrada e a neta ilegítima. Mas nada dizia à mãe para não aumentar o fluxo de lágrimas que todas as noites ela entregava ao cansaço na quietude do travesseiro. Zulmira bem ouvia o seu choro amarrotado sob a mordaça do silêncio. O ruído que fazia ao correr, para desaguar nas manhãs sempre iguais.
Acordava Zulmira com uma carícia na testa. Todos os dias. E todos os dias lhe dizia Deus te abençoe, minha filha.
Quando Zulmira entrou para a escola, a mãe temeu pela segurança emocional da filha. As outras crianças haviam de constantemente lembrar a pequena, com requintes de malvadez, da sua condição de zorra. Todos os dias. Apoquentada, resolveu antecipar-se e foi à escola, falar com a professora. Contou-lhe a história da sua vida. Comovida, pediu-lhe que não castigasse a filha pelos erros da mãe. Que a tratasse como às outras crianças. Que não deixasse as outras crianças humilharem a sua menina.
A professora disse-lhe que sim. Mas no dia seguinte decidiu, sem querer, que Zulmira seria a sua pior aluna. Porque nenhuma menina sem pai poderia ter aproveitamento escolar. E colocou-a na última fila da sala. Sem querer. Seguindo, inconsciente, os trilhos fáceis deixados pelos estigmas sociais da época.
Zulmira percebeu. Mas não quis apoquentar mais a mãe. Nem mesmo quando as outras meninas começaram a gozá-la no recreio, por ter um pai que não era pai dela. A mãe nunca lhe explicara claramente o que acontecera para que nunca tivesse conhecido o seu pai. Mas Zulmira sabia que enquanto tivesse aquela mãe nenhum pai lhe faria falta. Era tácita mas sólida a cumplicidade que as unia. Numa teia apertada de emoções pela qual se excluíam do mundo.
Por isso, quando a mãe lhe faltou, aos 21 anos de idade, Zulmira perdeu-se nas malhas dos afectos fáceis. Tropeçou tragicamente no pai dos seus três filhos e na queda perdeu o andar. E assim se tornaria dependente. Para sempre.
sábado, 17 de setembro de 2011
Zulmira morreu 2: Da desorientação
A filha mais velha da Zulmira tem 17 anos e vai para o 12º ano. Arrasta ainda nos olhos, lentos e mortiços, aquela angústia de não saber muito bem para que se serve.
[Se é que se serve para alguma coisa.]
A mãe morreu-lhe na pior altura da vida, portanto. Porque quando nos perdemos, é sempre a mão da nossa mãe que procuramos. É essa mão que, na infância, nos leva de volta ao caminho certo quando nos desviamos. Se vamos no extremo do passeio a mãe pega-nos pela mão e orienta-nos para o lado de dentro, onde estamos protegidos de eventuais atropelamentos. Se entramos no corredor errado do supermercado e percebemos, em pânico, que estamos sozinhos, a voz da nossa mãe há-de atravessar as prateleiras dos enlatados ou dos cereais para nos salvar, anunciando a chegada das suas mãos para muito breve. Se decidimos construir um avião de papel e quase perdemos a paciência porque não atinamos com as dobras necessárias, são os gestos da nossa mãe que descobrem a sequência certa, repondo a paz de se saber que se está a ir bem.
Mas agora a filha mais velha da Zulmira não tem as mãos nem os gestos da mãe. Tem o pai, é verdade. E em muitos casos os pais são bons substitutos das mães. Mas não neste caso. O pai dos filhos da Zulmira seria mais capaz de empurrá-los para a estrada do que de ajudá-los a construir um avião de papel. E jamais salvaria a sua filha mais velha da solidão de corredor algum. E o corredor da Zulmira não tem sinalização. Porque a bem da verdade, a mãe tinha as mãos, mas não teve tempo de lhe construir os sinais antes de enlouquecer. Nem sentidos proibidos, nem sentidos obrigatórios, nem sinais de perigo. Nada. A coisa mais parecida com um sinal que a filha mais velha da Zulmira tem é uma seta desenhada no seu corredor pelo psicólogo que lhe destacaram na escola. Mas é uma seta dúbia e a rapariga não confia nela. Porque em vez de apontar um caminho certo, a seta faz-lhe pergunta e dobra-se ao sabor das respostas. Ora, que seta é esta que não se decide?
A filha mais velha da Zulmira está verdadeiramente desorientada. Não sabe mesmo para que serve. Nem para onde deve ir para que acabe por servir para alguma coisa.
A única coisa que a filha mais velha da Zulmira sabe é que quando a mãe existia ela servia para dar abraços.
[texto publicado na edição de Agosto de 2011 do jornal Cipreste]
Zulmira morreu 1: Da sobrevivência e da morte
Faz por estes dias um ano que Zulmira se suicidou. Zulmira, a mulher do sapateiro, como era conhecida na terra. Um suicídio infeliz (serão todos os suicídios infelizes?). Muito mais infeliz porque a mulher, falecida pela força do desespero (ou da lucidez?), deixou três filhos menores. O pior de uma morte precoce é sempre os filhos que se deixam. E o grito que se lhes deixa nos olhos, para sempre.
Diz-se na terra daquela mulher desesperada (ou demasiado lúcida?) que foi muito maltratada pelo seu marido desde os tempos de namoro. A violência ter-se-á intensificado ao longo da vida conjugal. Os três filhos nasceram entretanto, nos intervalos fugazes da tortura.
Um dia Zulmira, desesperada, descobriu uma garrafa de vodka. Ouvira em tempos dizer que aquele veneno incolor, transparente como a paz, de que na verdade nunca aprenderia o nome, adormecia a dor. E cansada de se doer, a mulher desesperada (ou demasiado lúcida), bebeu os primeiros tragos. Percebeu, então, que há venenos que nos matam de uma tal forma que quase nos permitem querer viver. E nunca mais parou. Quando tudo doía demais, bebia. Quando já tinha saudades do desenho de uma gargalhada articulando-se-lhe no rosto, bebia. Sempre que tudo se assumia insuportavelmente real, bebia. E assim adormecia do cansaço do desespero. E da lucidez.
Em 1897 o sociólogo francês Émile Durkheim veio mexer nas teorias que confirmavam o suicídio como um acto meramente individual, e defender que, afinal, havia muito mais de social na sua origem. Num estudo que viria a tornar-se uma obra de referência na história da sociologia, “O Suicídio”, Durkheim defende, entre outros postulados, que este acto pode resultar de “vínculos sociais fracos”.
Desviando os olhos da sua obra, e trazendo, suspenso pelas frágeis gavinhas da compreensão, este fragmento da sua teoria, é-nos difícil imaginar e desenhar contextos que sirvam a todas as realidades concretas que conhecemos. Mas tudo faz sentido se atendermos à complexidade de tudo o que é tocado pelo comportamento humano. E parece, de facto, haver um denominador comum no estado de espírito de quem voluntariamente quebra os laços com a existência: o sentimento de não pertencer à dimensão física em que todos nos movemos. A sensação de descontextualização. A impressão da impossibilidade de sobrevivência no plano social. No plano das relações sociais que intercepta, inevitavelmente, o plano dos afectos.
E em todos os casos, se atentarmos bem, percebemos que o acto último foi precedido de várias estratégias de luta que adiaram a desistência. Muitos beberam. Outros enveredaram por dependências piores. Incluindo a emocional. Houve os que se isolaram como se o afastamento do mundo diminuísse o seu peso. Outros abdicaram da sua lucidez extrema e enlouqueceram. Mas em todas estas situações o preço a pagar pela sobrevivência é a degradação. E mais tarde ou mais cedo, o ponto de não retorno acontece. E a morte assume-se mesmo como a única saída para uma vida sem sentido.
[texto publicado na edição de Maio de 2011 do jornal Cipreste]
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