Há céus que nascem e morrem num mesmo dia. Que são
irrepetíveis. Há céus que só acontecem uma vez. O ocaso a passar na tela do
horizonte, devagar, e Zeferino só consegue pensar que há céus que não voltam a
nascer, que só acontecem uma vez. Por isso quer reter na pupila os tons
específicos daquele sol aceso sobre o pano engelhado daquele céu concreto. E
reter os contornos precisos da dor que lhe levou um certo céu.
Zeferino sabe que a vida é um estado transitório. Uma
condição temporária. Hoje sabe melhor do que ontem que assim é. Mas nunca tinha
pensado que há céus que não se repetem. Sempre pensou que o mesmo céu estaria
lá todos os dias. Independentemente de
tudo o que acontecesse. Mas agora sabe mais. Sabe na pele. Nos olhos e na ponta
dos dedos. No corpo todo. Sabe que há céus que se levam e não voltam a existir.
Zulmira nascera sob um céu denso e negro. Um céu carregado
de nuvens, ásperas e cinzentas, a roçarem a claridade de uma manhã, também ela
única. Zeferino não estava lá. Nascia, também, mas sob um outro céu. Um céu
límpido, transparente. A deixar perceber a textura de todo o universo.
Nasceram ambos no mesmo dia. Só que o céu não era o mesmo.
Passaram muitos céus entretanto.
Mas houve um dia em que Zulmira e Zeferino se encontraram.
Aconteceu-lhes, então, um céu comum. Chovia. Era o tempo das trovoadas. O mês
de todos os desabafos do céu. E o céu era o mesmo, Um céu comum. Um céu
acidificado de tanto respirar a energia poluída da terra. Um céu psicadélico
aos gritos.
Zulmira deitava gritos, também, dos olhos. Mas sem ruído.
Relâmpagos silenciosos. O lado esquerdo do seu rosto misturava-se com todos os
negros daquele dia. Zeferino foi o agente incumbido de interrogar Zulmira. Mas
Zulmira não queria falar. Nem queria estar ali. Se não tivesse sido encontrada
inconsciente em casa não estaria ali. Que a deixassem ir, pedia. Que tinha sido
um acidente, repetia. Caíra, e pronto. Batera com rosto no chão e desmaiara. Zeferino
nunca vira Zulmira antes. Mas percebeu que aquele céu que lhes acontecia era
especial. Quis pegar-lhe na mão e levá-la para um chão seguro, onde o céu seria
sempre azul. E sempre o mesmo. Sentiu-se atravessado de um raio de ternura. Um
raio luminoso e eletrizante. Queria mesmo pegar-lhe na mão e levá-la para o
chão da sua alma. Salvá-la. Mas Zeferino teve medo. Nunca vira Zulmira antes.
Não sabia nada daquela mulher. Só a intuição lhe fundamentava o apelo. Naquele
momento a intuição pareceu-lhe insuficiente. E deixou que Zulmira partisse sem apresentar
queixa alguma contra o marido. Deixou que voltasse na direção das mãos que
haviam enegrecido o seu rosto.
Agora, três dias depois, diante de um ocaso que nunca haverá
de esquecer, despede-se de um céu que se foi para sempre. Um céu que teve nas
mãos. Um céu que podia ter aprisionado na cela do seu nobre coração. Um céu que
deixou escapar por entre os dedos escorregadios da insegurança.
Zeferino foi o agente chamado à casa de Zulmira para tomar
conta da ocorrência da sua morte. E agora despede-se de um céu. Que se foi para
sempre.
[crónica publicada no Mensageiro de Bragança, ed. de 17.05.2012]






